quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Biografia de Francisco de Assis Tomás de Celano - 1Celano - Capítulos 13-15

Biografia de Francisco de Assis
Tomás de Celano
1Celano  - Capítulos 13-15

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CAPÍTULO 13. Escreve a Regra quando tem apenas onze irmãos. O Papa Inocêncio a confirma. Visão da árvore

32. Vendo o bem-aventurado Francisco que o Senhor aumentava cada dia o seu número, escreveu para si e para seus irmãos, presentes e futuros, com simplicidade e com poucas palavras, uma forma e Regra de vida, sendo principalmente expressões do santo Evangelho, pois vive-lo perfeitamente era seu único desejo. Acrescentou contudo algumas poucas coisas, absolutamente necessárias para o andamento da vida religiosa. Depois, foi a Roma com todos os referidos irmãos, desejando ardentemente que o Papa Inocêncio III confirmasse o que tinha escrito.
Achava-se naquela ocasião em Roma o venerando bispo de Assis, Guido, que estimava muito São Francisco e todos os seus irmãos, e os venerava com particular afeto. Vendo ali São Francisco e seus irmãos, e desconhecendo o motivo, não gostou. Temia que quisessem abandonar sua terra, onde o Senhor já começara a fazer coisas extraordinárias por meio de seus servidores. Gostava muito de ter esses homens de valor em sua diocese e esperava muito de sua vida e de seus bons costumes. Mas quando soube a causa e compreendeu os seus propósitos, alegrou-se muito no Senhor e lhes prometeu seu apoio e influência.
São Francisco também se apresentou ao senhor bispo de Sabina, João de São Paulo, que se destacava entre os outros príncipes e dignitários da Cúria Romana por "desprezar as coisas terrenas e aspirar às celestiais" Este o recebeu com "bondade e caridade" e elogiou bastante sua resolução e seus projetos.
. Entretanto, prudente e discreto, interrogou-o sobre muitos pontos e tentou persuadi-lo a passar para a vida monástica ou eremítica. Mas São Francisco recusou com humildade e quanto lhe foi possível esse conselho, sem desprezar os argumentos, mas por estar piedosamente convencido de que era conduzido por um desejo mais elevado. Admirava-se o prelado com seu fervor, e temendo que fraquejasse em tão altos propósitos, mostrava-lhe caminhos mais fáceis. Afinal, vencido por sua constância, anuiu a seus rogos e procurou apoiar sua causa diante do Papa.
Regia a Igreja de Deus naquele tempo o Papa Inocêncio III, homem ilustre, muito rico em doutrina, celebérrimo orador e muito zeloso da justiça em tudo que se referia ao culto da fé cristã. Informado do desejo daqueles homens de Deus, depois de refletir, aceitou o pedido e deu-lhe despacho. Tendo-lhes feito muitas exortações e admoestações, abençoou São Francisco e seus irmãos e lhes disse: "Ide com Deus, irmãos, e conforme o Senhor se dignar inspirar-vos, pregai a todos a penitência. Quando o Senhor vos tiver enriquecido em número e graça, vinde referir-me tudo com alegria, e eu vos concederei mais coisas do que agora e, com maior segurança, vos confiarei encargos maiores".
Na verdade, o Senhor estava com São Francisco, onde quer que ele fosse, alegrando-o com revelações e animando-o com benefícios. Certa noite, viu-se em sonhos andando por um caminho, ao lado do qual havia uma árvore de grande porte. A árvore era bela e forte, grossa e muito alta. E aconteceu que, estando a admirar sua beleza e altura, o próprio santo tornou-se de repente tão alto que tocava o cimo da árvore e com suas mãos conseguia vergá-la facilmente até o chão. De fato, foi o que aconteceu quando Inocêncio III, a árvore mais alta e mais respeitável do mundo, se inclinou com tanta benignidade ao pedido e à vontade de Francisco.

CAPÍTULO 14. Volta de Roma para o vale de Espoleto. - Uma pausa no caminho
34. Muito contentes com a bondade e generosidade do grande pai e senhor, Francisco e seus irmãos deram graças a Deus todopoderoso, que exalta os humildes e conforta os aflitos. Foram logo visitar o túmulo de São Pedro e, terminada a oração, saíram de Roma e tomaram o caminho do vale de Espoleto.
Durante a viagem, conversavam sobre tantos e tão grandes dons de Deus clementíssimo: como tinham sido cordialmente recebidos pelo vigário de Cristo, senhor e pai de todo o povo cristão; como poderiam pôr em prática suas admoestações e preceitos; como poderiam observar com sinceridade e guardar com firmeza a Regra que tinham recebido; como fariam para viver diante de Deus com toda santidade e religiosidade; como, finalmente, sua vida e costumes, pelo crescimento das virtudes, poderiam servir de exemplo para os outros.
Mas, enquanto os novos discípulos de Cristo discutiam bastante sobre esses assuntos, como numa escola de humildade, o dia se adiantou e a hora passou. Chegaram a um lugar solitário, muito cansados, e, com fome, não conseguiram nada para comer, porque estavam longe de qualquer povoação. Subitamente, porém, por graça de Deus, encontraram um homem com um pão. Deu-lho e se foi. Como não o conheciam, ficaram profundamente admirados. Cheios de devoção, exortavam-se mutuamente a ter maior confiança na misericórdia de Deus.
Reconfortados pelo alimento, chegaram a um lugar perto de Orte, e ali ficaram quase quinze dias. Para terem o que comer, alguns deles iam à cidade e levavam aos outros o pouco que podiam recolher, mendigando de porta em porta. Comiam juntos, cheios de alegria e dando graças. Se sobrava alguma coisa, não tendo ninguém a quem dar, guardavam-na em um sepulcro que já servira para guardar corpos de mortos, para comê-la depois. O lugar era deserto e abandonado e pouca gente, ou ninguém, passava por ali.
35. Grande era seu regozijo por nada verem, nem possuírem que os pudesse prender às coisas vãs e agradáveis aos sentidos. Por isso iniciaram aí sua aliança com a santa pobreza e, extraordinariamente consolados pela falta de todas as coisas que são do mundo, decidiram permanecer sempre unidos a ela, como estavam ali. Pondo de lado toda solicitude pelos bens terrenos, só lhes interessava a consolação de Deus. Por isso resolveram com firmeza não se apartar dos braços da pobreza por maiores que fossem as tribulações e tentações.
Embora a amenidade daquele lugar, que bem lhes poderia debilitar o vigor do espírito, não os estivesse prendendo, eles o abandonaram para que uma permanência mais longa não tivesse nem exteriormente alguma aparência de posse, e, seguindo o feliz pai, entraram no vale de Espoleto.
Fiéis cultores da justiça, discutiam também se deveriam permanecer entre os homens ou retirar-se para lugares desertos. Mas São Francisco, que não confiava em sua sabedoria mas prevenia tudo com a santa oração, preferiu não viver apenas para si mesmo, mas para aquele que morreu por todos, convencido de que tinha sido mandado para conquistar para Deus as almas que o demônio se empenhava em arrebatar.  

CAPÍTULO 15. Fama de São Francisco. Conversão de muitos. Como a Ordem se chamou dos Frades Menores. Instruções de São Francisco aos que entram na Ordem

36. Valoroso soldado de Cristo, Francisco percorria as cidades e povoados anunciando o reino de Deus, proclamando a paz, pregando a salvação e a penitência para a remissão dos pecados, sem usar os argumentos da sabedoria humana, mas a doutrina e a força do Espírito.
Apoiado na autorização apostólica que lhe tinha sido concedida, agia em tudo destemidamente, sem adular nem tentar seduzir ninguém com moleza. Não sabia lisonjear as culpas de ninguém, mas pungi-las. Não tentava desculpar a vida dos pecadores, mas atacava-os com áspera reprimenda, tanto mais que tinha posto primeiro em prática as coisas que estava dizendo aos outros. Sem medo de que o repreendessem, anunciava a verdade destemidamente, de maneira que até os homens mais letrados, que gozavam de renome e dignidade, admiravam seus sermões e em sua presença sentiam-se possuídos de temor salutar. Acorriam homens e mulheres, clérigos e religiosos, para verem e ouvirem o santo de Deus, que a todos parecia um homem de outro mundo.
Sem distinção de idade ou sexo, corriam todos assistir as maravilhas que Deus estavam realizando outra vez por seu servo neste mundo. Na verdade, parecia que, naquele tempo, tanto pela presença como pela simples fama de São Francisco, tivesse sido enviada uma luz nova do céu para a terra, espantando toda escuridão das trevas, que a tal ponto tinha ocupado quase toda a região, que mal dava para alguém saber onde se estava indo. Tão profundos eram em quase todos o esquecimento de Deus e a negligência na observância de seus mandamentos, que quase não se conseguia afastar alguém de seus inveterados vícios.
37. Brilhava como uma estrela fulgente na escuridão da noite e como a aurora que se estende sobre as trevas. Dessa maneira, dentro de pouco tempo, tinha sido completamente mudada a aparência da região, que parecia por toda parte mais alegre, livre da antiga fealdade. Acabara a prolongada seca e brotara a messe no campo áspero. Até a vinha descuidada se cobriu de brotos que espalhavam o perfume do Senhor e, dando flores de suavidade, carregou-se de frutos de honra e honestidade. Ressoavam por toda parte a ação de graças e o louvor, e por isso foram muitos os que quiseram deixar os cuidados mundanos para chegar ao conhecimento de si mesmos na vida e na escola do santo pai Francisco, caminhando para o amor de Deus e o seu culto.
Começaram a vir a São Francisco muitas pessoas do povo, nobres e plebeus, clérigos e leigos, querendo por inspiração de Deus militar para sempre sob sua orientação e magistério. O santo de Deus, como um rio caudaloso de graça celeste, derramando a chuva dos carismas, enriquecia o campo de seus corações com as flores das virtudes. Pois era um artista consumado que apresentava o exemplo, a Regra e os ensinamentos de acordo com os quais, tanto nos homens como nas mulheres, a Igreja de Cristo rejuvenescia e triunfava o tríplice exército dos predestinados. A todos propunha uma norma de vida e demonstrava com garantias o caminho da salvação em todos os graus.
38.Mas o nosso principal assunto agora é a Ordem, que assumiu e sustentou tanto por seu amor como por sua profissão. Que diremos? Foi ele mesmo quem fundou a Ordem dos Frades Menores e assim lhe deu o nome: quando estavam escrevendo na Regra: "e sejam menores", ao ouvir essas palavras disse: "Quero que esta fraternidade seja chamada Ordem dos Frades Menores".
De fato, eram menores, porque eram "submissos a todos", sempre procuravam o pior lugar e queriam exercer o ofício em que pudesse haver alguma desonra, para merecerem ser colocados sobre a base sólida da humildade verdadeira e neles pudesse crescer auspiciosamente a construção espiritual de todas as virtudes.
Em verdade, sobre o fundamento da constância levantou-se a nobre construção da caridade, na qual as pedras vivas, recolhidas em todas as partes do mundo, tornaram-se templo do Espírito Santo. Que caridade enorme abrasava os novos discípulos de Cristo! Quão forte era o laço que os unia no amor do piedoso grupo! Quando se reuniam em algum lugar, ou quando se encontravam em viagem, reacendia-se o fogo do amor espiritual, espargindo suas sementes de amizade verdadeira sobre todo o amor. E como? Com castos abraços, com terno afeto, com ósculos santos, uma conversa amiga, sorrisos modestos, semblante alegre, olhar simples, ânimo suplicante, língua moderada, respostas afáveis, o mesmo desejo, pronto obséquio e disponibilidade incansável.
39. O fato é que, tendo desprezado todas as coisas terrenas e estando livres do amor-próprio, consagravam todo o seu afeto aos irmãos, oferecendo-se todos para atender às necessidades fraternas. Reuniam-se com prazer e gostavam de estar juntos: para eles era pesado estarem separados, o afastamento era amargo e partir era doloroso.
Nada ousavam esses obedientíssimos soldados de Cristo antepor aos preceitos da obediência. Antes de acabarem de receber uma ordem, já se preparavam para cumprí-la. Como não sabiam fazer distinções de preceitos, precipitavam-se a executar tudo que lhes era mandado, sem fazer reparos.
"Seguidores da santíssima pobreza" porque não tinham nada, nada desejavam, e por isso não tinham medo de perder coisa alguma. Estavam contentes com uma única túnica, remendada às vezes por dentro e por fora: não lhes servia de enfeite mas de desprezo e pobreza, para poderem mostrar claramente que nela estavam crucificados para o mundo. Cingiam-se com uma corda e usavam calças de pano rude, fazendo o piedoso propósito de ficar simplesmente assim, sem ter mais nada.
Naturalmente estavam seguros em qualquer lugar, sem nenhum temor, cuidado ou preocupação pelo dia seguinte, nem se incomodavam com o abrigo que teriam à noite, mesmo nas grandes dificuldades, freqüentes nas viagens. Pois, como muitas vezes nem tinham onde se abrigar do frio mais rigoroso, recolhiam-se a um forno ou se escondiam humildemente, à noite, em grutas ou cavernas.
Durante o dia, os que sabiam trabalhavam com as próprias mãos, permanecendo nas casas dos leprosos ou outros lugares de respeito, servindo a todos com humildade e devoção. Não queriam exercer ofício algum que pudesse causar escândalo, mas, fazendo sempre coisas santas e justas, honestas e úteis, davam exemplo de humildade e de paciência a todos.
40. Tinham adquirido tanta paciência que preferiam estar nos lugares onde os perseguiam e não onde sua santidade fosse conhecida e louvada, e assim pudessem conseguir os favores do mundo. Foram muitas vezes cobertos de opróbrios e de ofensas, despidos, açoitados, amarrados, encarcerados, sem recorrer à proteção de ninguém, e suportavam tudo varonilmente, vindo à sua boca apenas a voz do louvor e da ação de graças.
Poucas vezes, ou nunca, deixavam de louvar a Deus ou de rezar, mas estavam sempre lembrando uns aos outros tudo que tinham feito, agradecendo a Deus pelas coisas boas, gemendo e chorando pelas negligências e descuidos. Julgavam-se abandonados por Deus se não fossem por Ele visitados com a piedade habitual no espírito da devoção. Para não dormirem quando queriam rezar, usavam algum expediente: uns se agarravam a cordas suspensas para que a chegada do sono não perturbasse a oração, outros se cingiam com cilícios de ferro e ainda outros rodeavam a cintura com instrumentos de madeira. Se alguma vez a abundância de comida ou de bebida, como pode acontecer, perturbava sua sobriedade, ou pelo cansaço do caminho passavam além da necessidade absoluta, mortificavam-se com uma abstinência de muitos dias. Afinal, punham tanto esforço em reprimir as tentações da carne, que muitas vezes não se horrorizavam de despir-se no gelo mais frio, nem de molhar o corpo todo com o sangue derramado por duros espinhos.
41. Desprezavam tão fortemente todas as coisas terrenas que mal se permitiam receber o que era extremamente necessário para a vida, e estavam tão acostumados a passar sem as consolações do corpo, que não os assustavam os maiores sacrifícios.
Em tudo isso guardavam a paz e a mansidão com todas as pessoas. Fazendo sempre coisas puras e pacíficas, evitavam cuidadosamente todo escândalo. Apenas falavam quando era necessário e de sua boca nunca saía nada de inconveniente ou ocioso: em sua vida e procedimento não se podia descobrir nada de lascivo ou desonesto.
Seus gestos eram comedidos e seu andar simples. Tinham os sentidos tão mortificados que mal pareciam ver ou ouvir senão o que lhes estava pedindo a atenção. Tinham os olhos na terra, mas o pensamento no céu. Nem inveja, nem malícia, ou rancor, nem duplicidade, suspeição ou amargura neles existiam, mas apenas muita concórdia, calma contínua, ação de graças e louvor. Era com esses princípios que o piedoso pai formava seus novos filhos, não só com palavras e doutrina, mas de verdade e com o exemplo.

1.      O que te chamou mais atenção neste texto?
2.      Como ele contribuiu para sua espiritualidade cristã?



terça-feira, 18 de outubro de 2016

51 - História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia Livro IX – Capítulos 09 a 11




Livro IX
51
História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia
Livro IX – Capítulos 09 a 11

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Santa Helena, Mãe de Constantino Magno - Construtora de Igrejas na Terra Santa. 

IX - Da morte catastrófica dos tiranos e palavras que pronunciaram antes de
morrer
1.            Assim pois, Constantino, que, como já dissemos anteriormente, é imperador filho de imperador e varão piedoso, filho de um pai piedoso e prudentíssimo em tudo, foi levantado contra os ímpios tiranos[1] pelo Imperador supremo, o Deus do universo e Salvador. E quando determinou-se a lutar segundo a lei da guerra, combatendo como aliado dele, Deus da maneira mais extra­ordinária, Maxêncio caiu em Roma ao impacto de Constantino, enquanto o outro, sobrevivendo muito pouco tempo no Oriente, sucumbiu nas mãos de Licínio, que então ainda não estava transtornado.
2.     Constantino foi o primeiro dos dois - primeiro também em honra e digni­dade imperiais - que mostrou moderação com os oprimidos pelos tiranos em Roma. Depois de invocar como aliado em suas orações ao Deus do céu e a seu Verbo, e ainda ao próprio Salvador de todos, Jesus Cristo, avançou com todo seu exército, tentando alcançar para os romanos sua liberdade ancestral.
3.            Maxêncio, sabemos, confiava mais nos artifícios da magia do que na bene­volência dos súditos, e na verdade não se atrevia a dar um passo fora das portas da cidade, apesar de que, com a multidão de hoplitas[2] e com as inumeráveis companhias de legionários, cobria todo lugar, toda região e toda cidade, todas as que tinha escravizadas, em torno de Roma e em toda a Itália. O imperador, aferrado à aliança de Deus, ataca o primeiro, o segundo e o terceiro exército do tirano, e depois de vencê-los a todos com facilidade, avança o mais que pode pela Itália até muito perto de Roma.
4.     Logo, para que não se visse forçado a lutar contra os romanos por causa do tirano, Deus mesmo arrastou o tirano, como em cadeias, o mais longe das portas[3]. E o que já antigamente estava escrito nos sagrados livros contra os ímpios, incrível para a maioria como se se tratasse de contos de fábula, mas bem digno de fé por sua própria evidência, ao menos para os fiéis, para dizer pouco, fez-se crível para todos quantos, fiéis e infiéis, viram o prodígio com seus próprios olhos.
5.      Da mesma forma que, nos tempos de Moisés e da antiga piedosa nação dos hebreus, precipitou no mar os carros do faraó e seu exército, a flor de seus cavaleiros e capitães; o mar Vermelho os tragou, o mar os cobriu[4], assim também Maxêncio e os hoplitas e lanceiros de sua escolta afundaram na profundeza como uma pedra quando, dando as costas ao exército que vinha da parte de Deus com Constantino, atravessava o rio que lhe cortava o caminho e que ele mesmo havia unido e bem pontoneado com barcas, construindo assim uma máquina de destruição contra si mesmo[5].
6.             Dele se poderia dizer: cavou um fosso e tirou-lhe a terra; e cairá na vala que fez. Seu trabalho se voltará contra sua cabeça, e sua injustiça recairá sobre sua moleira[6].
7.      Assim pois, desfeita a ponte estendida sobre o rio, a passagem afunda e as barcas se precipitam de um golpe no abismo com todos seus homens; e ele mesmo em primeiro, o homem mais ímpio, e logo os escudeiros que o rodeavam afundaram como chumbo nas águas impetuosas[7], como já predisse o oráculo divino;
8.             de forma que, se não com palavras, como é natural, mas pelo menos com as obras, os que com a graça de Deus haviam se alçado à vitória, poderiam junto com os seguidores do grande servo Moisés[8] entoar o mesmo hino que contra o ímpio tirano de então e dizer: Cantemos ao Senhor, porque gloriosamente cobriu-se de glória. Cavalo e cavaleiro lançou ao mar. Minha ajuda e minha proteção, o Senhor; se fez meu salvador[9]; e Quem como tu entre os deuses, Senhor? Quem como tu, glorificado nos santos, admirável na glória, operador de maravilhas![10]
9.   Estas e muitas outras coisas parecidas com estas cantou Constantino com suas obras ao Deus supremo, causa de sua vitória, e entrou em triunfo em Roma, enquanto todos em massa, com suas crianças e suas mulheres, os senadores e altos dignitários, e todo o povo romano, recebiam-no com os olhos brilhantes, de todo coração, como a um libertador, salvador e benfeitor, em meio a vivas e a uma alegria insaciável.
10.     Mas ele, que possuía a piedade para com Deus como algo inato, sem per­turbar-se o mínimo com as aclamações nem envaidecer-se com os louvores, muito consciente de que a ajuda provinha de Deus, ordena imediatamente que na mão de sua própria estátua se coloque o troféu da paixão salvadora, e ao ver que lha erigiam no lugar mais público de Roma sustentando em sua mão direita o signo salvador, ordena-lhes que gravem esta inscrição em língua latina com suas próprias palavras:
11.     "Com este símbolo salvador, que é a verdadeira prova do valor, salvei e livrei vossa cidade do jugo do tirano; mais ainda, livrei-a e a restituí ao senado e ao povo romanos em seu antigo renome e esplendor."
12.     E depois disto, o próprio Constantino, e com ele Licínio - que então ainda não havia voltado seu pensamento para a loucura em que viria a dar mais tarde -, depois de aplacar a Deus, causa para eles de todos os bens, ambos juntos, por acordo e decisão comum, redigem uma lei perfeitíssima no mais pleno sentido em favor dos cristãos, e enviam uma relação dos portentos que Deus lhes havia feito - a vitória contra o tirano - e a própria lei a Maximino, que ainda imperava sobre os povos do Oriente e lhes fingia amizade.
13.     Mas ele, tirano como era, afligiu-se muito ao saber destas coisas, e logo, não querendo aparentar que cedia ante os outros nem tampouco que suprimia o ordenado, por temor aos que o haviam ordenado, vê-se na necessidade de escrever em favor dos cristãos aos governadores seus súditos, como se o fizesse por seu próprio e absoluto poder, esta primeira carta em que falsamente finge sobre si coisas que jamais havia realizado.

IX-a Cópia da tradução da carta do tirano
1.            "Jovio Maximino Augusto, a Sabino: Estou persuadido de que, tanto para tua firmeza quanto para todos os homens, é evidente que nossos senhores e pais, Diocleciano e Maximiano, quando se deram conta de que quase todos os homens, abandonando o culto dos deuses, haviam se misturado com a raça dos cristãos, agiram corretamente ao ordenar que todos os que haviam deserdado do culto de seus próprios deuses imortais fossem novamente chamados ao culto dos deuses mediante correção e castigo exemplar.
2.            Mas quando eu cheguei pela primeira vez ao Oriente sob bons auspícios e me inteirei de que em alguns lugares os juízes haviam desterrado pela causa acima assinalada numerosíssimas pessoas que podiam ser úteis ao Estado, dei ordens a cada um dos juízes para que daí em diante nenhum deles se comportasse duramente com os habitantes das províncias, mas que, com carinho e exortações, tentassem chamá-los novamente ao culto dos deuses.
3.             Em conseqüência, por então, enquanto os juízes, conforme minhas ordens, guardavam o que estava ordenado, nas partes do Oriente ninguém era dester­rado nem ultrajado; ao contrário, ocorria mais que, por nada de grave se fazer contra eles, retornavam ao culto dos deuses.
4.      E logo, quando no ano passado entrei felizmente em Nicomedia e lá residi, apresentaram-se a mim cidadãos da mesma cidade com as estátuas de seus deuses pedindo-me encarecidamente que de nenhuma maneira permitisse que semelhante raça habitasse em sua pátria.
5.             Mesmo assim, quando fui informado de que numerosíssimos homens da mesma religião habitavam aquelas regiões, dei-lhes como resposta que lhes agradecia prazerosamente sua petição, mas que advertia que este pedido não provinha de todos. Por conseguinte, se havia alguns que perseveravam na mesma superstição, que cada um decidisse segundo sua preferência pes­soal, e se quisessem, que reconhecessem o culto dos deuses.
6.             Mas, aos habitantes da própria Nicomedia e às demais cidades que tão solicitamente me tinham feito também idêntica petição, ou seja, que nenhum cristão habitasse em suas cidades, tive que responder-lhes forçosamente em termos amistosos, já que assim fizeram mesmo os antigos imperadores, e devido aos próprios deuses - pelos quais se mantém todos os homens e a própria administração do Estado - que eu confirmava essa importante petição que apresentavam em favor do culto de sua divindade.
7.             Por conseguinte, ainda que anteriormente tenhamos escrito a tua devoção e que te haja sido igualmente ordenado em instruções não comportar-te dura­mente com os provincianos que se empenhavam em guardar semelhante costume, mas tratá-los com paciência e moderação, mas, para que não tenham que agüentar insultos nem violências pelas mãos dos beneficiários[11] ou de quaisquer outros, julguei oportuno sugerir a tua gravidade com esta carta que, valendo-te de agrados e exortações, faças com que nossas províncias reconheçam o culto aos deuses.
8.             Daí que, se alguém por sua vontade admitir que se deve reconhecer o culto dos deuses, a estes convém receber. Mas se alguns desejam seguir seu próprio culto, poderias ir deixando-os em sua liberdade.
9.      Por esta razão, tua devoção deve guardar escrupulosamente o que te foi confia­do, e que a ninguém se dê a possibilidade de excitar nossos provincianos com injúrias e violências, pois, como acima está escrito, mais convém atrair nova­mente nossos provincianos ao culto dos deuses com exortações e agrados. E para que este nosso mandato chegue ao conhecimento de todos nossos provin­cianos, deverás tornar público o mandato mediante uma ordem que tu proporás."
10.     Como ele havia tomado estas disposições forçado pela necessidade e não por sua própria convicção, ninguém o tomou por verdadeiro e digno de fé, devido a seu pensar inconstante e mentiroso, já anteriormente manifestado numa concessão semelhante.
11.     Em conseqüência, nenhum dos nossos se atrevia a convocar uma reunião nem a apresentar-se em público, já que o edito não o autorizava; somente ordenava não nos insultar, mas não animava a que se fizessem reuniões, que se construíssem igrejas e que se praticasse qualquer ato dos costumeiros entre nós.
12.     E mesmo assim os defensores da paz e da piedade lhe haviam escrito que o permitisse, e eles o haviam concedido por meio de editos e leis a todos seus súditos. Na verdade aquele monstro de impiedade preferia não ceder neste terreno, até que, por fim, acossado pela justiça divina, muito a contragosto, viu-se forçado a fazê-lo.

X - Da vitória dos imperadores amigos de Deus
1.            Esta foi a causa que o obrigou. Maximino era incapaz de levar o peso do governo supremo que lhe haviam confiado sem merecê-lo; devido a sua falta de reflexão sensata e própria de um imperador, manejava os assuntos públicos com total imperícia e, sobretudo, erguia-se irrefletidamente em sua alma com orgulhosa jactância inclusive contra seus próprios colegas imperiais, que em tudo o superavam, tanto em linhagem quanto em educação, instrução, dignidade, inteligência e - o que é mais importante - em sábia prudência e em piedade para com o verdadeiro Deus. Começou com a ousadia de atrever-se e de proclamar-se a si mesmo publicamente o primeiro nas honras[12].
2.     Levando à loucura seu insano orgulho, quebrou todos os pactos que havia feito com Licínio e empreendeu uma guerra sem quartel. Logo, em pouco tempo, alvoroçando tudo e perturbando profundamente cada cidade, reuniu toda a força armada, uma multidão de incontáveis miríades, e partiu para a luta em ordem de batalha contra ele e com a alma exaltada pelas esperanças postas nos demônios, que ele acreditava serem deuses, e nas miríades de soldados armados.
3.            Mas, ao chegar às mãos, encontrou-se desprovido da proteção de Deus, por outorgar-se ao que então mandava[13] a vitória que procede do mesmo e único Deus de todas as coisas.
4.   Em primeiro lugar perde o corpo de hoplitas em que depositava sua con­fiança, enquanto os lanceiros de sua escolta pessoal o abandonam indefeso e privado de tudo, e passam para o vencedor. O desgraçado, despindo-se a toda pressa do ornato imperial, que de modo algum lhe cabia, desliza entre a multidão covardemente, como um canalha e sem ânimo viril. Depois foge, e escondendo-se com dificuldade das mãos de seus inimigos pelos campos e aldeias, vai vagando de uma parte a outra buscando sua salvação e mos­trando bem às claras, com os próprios fatos, a fidelidade e verdade dos divinos oráculos onde se diz:
5.             Não se salva o rei por seu numeroso exército nem o gigante será salvo pela abundância de sua força. Inútil é o cavalo para salvar-se, e ninguém se salvará por sua grande potência. Vede os olhos do Senhor postos sobre os que o temem, os que esperam em sua misericórdia, para arrancar suas almas da morte[14].
6.             Foi assim que o tirano chegou coberto de vergonha a seu próprio território, e ali, enfurecido, começou por fazer executar muitos sacerdotes e profetas dos deuses que ele antes admirava e cujos oráculos o haviam incitado a empreender a guerra, acusando-os de impostores, de charlatães, e sobretudo de haverem-se convertido em traidores de sua salvação. Logo[15] deu glória ao Deus dos cristãos, e depois de haver disposto uma lei perfeitíssima e completíssima em favor da liberdade dos mesmos, acabou imediatamente sua vida com uma morte penosa e sem que lhe fosse dado um prazo de tempo. A lei que ele havia enviado era do seguinte teor:

Cópia da tradução da ordem do tirano em favor dos cristãos, traduzida da língua latina à grega.
7.   "O imperador César Caio Valério Maximino Germânico Sarmático Augusto Pio Félix Invicto: Que nós velamos continuamente e de todas as maneiras pelo proveito de nossos provincianos e que nossa vontade é proporcionar-lhes o que mais faça prosperar as vantagens de todos e o que seja de proveito e utilidade comuns, assim como o que se presta à utilidade pública e resulta
agradável ao parecer de cada um, cremos que ninguém o ignora, antes, cre­
mos que cada um se atém aos próprios fatos e é consciente de sua evidência.
8.   Assim pois, quando antes ficou patente a nosso conhecimento que, sob o pretexto de que os divinos Diocleciano e Maximiano, nossos pais, tinham mandado abolir as assembléias dos cristãos, os officiales[16] haviam causado muitos prejuízos e espoliações, e que em seguida isto havia se estendido como dano a nossos provincianos (por cujo cuidado nos estamos debatendo),
ficando destruídas as propriedades de particulares, no ano passado dirigimos cartas aos governadores de cada província e legislamos o seguinte: que se alguém quiser seguir semelhante costume ou a própria observância da religião, que não tivesse impedimento a seu propósito e que ninguém lhe pusesse estorvos nem o proibisse, e que todos tivessem facilidade para fazer sem temor nem suspeita o que a cada um agradasse.
9.      Somente que agora não se pôde mais ocultar-nos que alguns juízes vinham descuidando de nossos comandos, expunham nossos homens à dúvida sobre as ordens e faziam com que se aproximassem com maior vacilação às pró­prias práticas religiosas que eram de seu agrado.
10.      Por conseguinte, para eliminar logo toda suspeita e ambigüidade causadoras de temor, determinamos que se promulgue esta ordem, com o fim de que a todos seja manifesto que, por este nosso presente, àqueles que quiserem tomar parte em semelhante seita ou religião é lícito aproximar-se, da maneira que cada um queira, ou como mais goste, a aquela religião que tenha escolhido praticar habitualmente. E também fica-lhes permitido construir suas próprias igrejas.
11.      Mas, para que seja maior o nosso presente, julgamos digno legislar também o seguinte: que se algumas casas e campos, anteriormente propriedade por direito dos cristãos, tiverem vindo a cair em posse legal do fisco por ordem dos nossos, ou se alguma cidade deles tiver se apropriado, seja por leilão ou porque foi obsequiado a alguém, tudo isto ordenamos que seja restituído ao antigo direito de propriedade dos cristãos, com o fim de que, inclusive nisto, todos percebam nossa piedade e nossa providência."
12.      Estas são as palavras do tirano, que chegaram com quase um ano de atraso sobre os editos que ele mesmo havia feito afixar em esteias contra os cristãos. E aos que até pouco antes sucumbiam ante seus próprios olhos a ferro e fogo e como pasto das feras e aves de rapina, e sofriam todo tipo de castigo, de suplício e de morte do modo mais miserável, como se se tratasse de ateus e ímpios, a estes o mesmo declarava agora observantes da religião e lhes permitia construir igrejas. E até o tirano em pessoa confessa que têm parte em certos direitos!
13.     E quando havia realizado tais confissões, padecendo sem dúvida menos do que merecia padecer, como se por causa delas tivesse alcançado certo favor, ferido repentinamente pelo flagelo de Deus[17], sucumbe na segunda refrega da guerra.
14. Mas não teve a morte que acontece aos generais supremos da guerra que, batendo-se varonilmente repetidas vezes pela virtude e por seus amigos, sofreram com valentia um fim glorioso na batalha; este, bem ao contrário, como ímpio e hostil a Deus, recebeu o castigo merecido quando se achava em casa e andava se ocultando enquanto seu exército seguia ainda na planície combatendo por ele. Ferido repentinamente em todo seu corpo pelo flagelo de Deus, caiu de bruços como empurrado por atrozes sofrimentos e vivíssimas dores. Devorado pela fome e com suas carnes consumidas por um fogo invisível e de origem divina, toda a aparência de sua antiga forma desapareceu como que aniquilada e ficou unicamente nos puros ossos, como um espectro há muito tempo reduzido a esqueleto; assim que os que o rodeavam não podiam senão pensar que o corpo se lhe havia convertido em sepulcro da alma, enterrada já num cadáver em completa decomposição. 15. Mas ao abrasar-lhe muito mais terrivelmente o fogo desde o fundo da medula, os olhos lhe saltaram, e caindo de suas órbitas deixaram-no cego. Ele, ainda respirando, apesar disto, confessava o Senhor e chamava a morte. E depois de confessar que padecia isto com toda justiça por causa de seu excesso demencial contra Cristo, entregou sua alma.

XI - Da destruição final dos inimigos da religião
1.            Morto desta maneira Maximino, único sobrevivente dos inimigos da religião e que manifestou ser o pior de todos, as igrejas surgiam, pela graça de Deus Todo-poderoso, reconstruídas desde os fundamentos, e a doutrina de Cristo, rutilante para a glória do Deus do universo, alcançava uma liberdade confiante, maior do que a de antes, enquanto os ímpios inimigos da religião se cumulavam de vergonha e desonra extremas.
2.            Efetivamente, o próprio Maximino foi o primeiro a quem os imperadores proclamaram inimigo comum de todos, e por meio de editos públicos, para conhecimento geral, foi denunciado como tirano ímpio, abominável e inimi­go de Deus. Das pinturas que em cada cidade foram dedicadas a sua honra e de seus filhos, umas foram lançadas do alto contra o solo e desfizeram-se em pedaços; outras tiveram seus rostos enegrecidos com cores sombrias e ficaram inservíveis. Assim também as estátuas, todas as que foram erigidas em sua honra: também foram derrubadas e feitas em pedaços, ficando expos­tas aos riso e à burla dos que queriam insultá-las e enfurecer-se com elas.
3.            E logo também os restantes inimigos da religião foram sendo despojados de todas as honras, e inclusive matavam-se todos os partidários de Maximino, especialmente os que, tendo sido honrados por ele com as honras do governo, para adulá-lo haviam-se atirado com violência contra nossa doutrina.
4.     Assim era Peucetio, para todos o mais honrado por ele, o mais respeitado e de maior confiança entre seus companheiros, a quem ele havia nomeado cônsul duas e três vezes, e prefeito de todas as contas. Assim também Culciano, que havia ascendido por todos os graus do governo e que também se gloriava de inúmeras matanças de cristãos no Egito[18]. E além destes havia muitos outros, por meio dos quais se havia firmado e aumentado a tirania de Maximino.
5.             Deve-se saber que também Teotecno era procurado pela justiça, que não esquecia o que ele havia levado a cabo contra os cristãos. Efetivamente, porque havia erigido um ídolo em Antioquia pensava que seus dias seriam felizes, e realmente até Maximino o havia considerado digno de um cargo de governo.
6.             Mas quando Licínio entrou na cidade de Antioquia e empreendeu a busca dos charlatães, fez atormentar profetas e sacerdotes do recém-erigido ídolo, tratando de averiguar por que razão haviam fingido a fraude. Como apertados pelos tormentos não lhes era possível seguir ocultando-o, declararam que todo o mistério era uma fraude urdida pelo engenho de Teotecno. Então impôs a todos o castigo que haviam merecido e entregou à morte primeiro o próprio Teotecno, e logo também seus cúmplices no engodo, depois de numerosos suplícios.
7.      A todos estes vieram juntar-se inclusive os filhos de Maximino, aos quais já tinha feito sócios da dignidade imperial e da dedicatória em retratos e em pinturas. E os que anteriormente se jactavam de parentesco com o tirano e estavam prestes a subjugar todos os homens, sofreram as mesmas penas que os supracitados, junto com a desonra extrema, já que não haviam aceitado a lição nem conheciam nem compreendiam a exortação que nas Sagradas Escrituras vai repetindo:
8.             Não confieis em príncipes nem nos filhos dos homens, em que não há salvação. Sai-lhes o espírito, e eles tornam ao pó. Nesse mesmo dia perecem todos os seus desígnios.
(Em todas as coisas se dêem graças a Deus Todo-poderoso e rei do universo e também mui numerosas ao Salvador e Redentor de nossas almas, Jesus Cristo, por meio do qual estamos continuamente suplicando que nos con­serve segura e firme a paz, ao abrigo tanto das perturbações de fora como das da mente.)
[Assim varridos os ímpios, Constantino e Licínio guardaram para si sós a parte correspondente do Império, segura e indiscutível. Estes, depois de eliminar do mundo antes de mais nada a inimizade contra Deus, conscientes dos bens que Deus lhes havia outorgado, demonstraram seu amor à virtude, seu amor a Deus, sua piedade e gratidão para com a divindade por meio de sua legislação em favor dos cristãos.]

  1. O que mais te chamou atenção no texto?
  2. Qual a contribuição do texto para sua espiritualidade?







[1] Maxêncio e Maximino.
[2] Soldado de infantaria com armadura pesada.
[3] Maxêncio foi obrigado a seguir junto com o exército.
[4] Ex 15:4-5.
[5] A ponte de barcas estava preparada como armadilha contra Constantino, mas rom­peu-se antes do tempo. Maxêncio morreu afogado no Tibre.
[6] Sl 7:16-17 (7:15-16).
[7] Ex 15:10.
[8] Ex 14:31.
[9] Ex 15:1-2.
[10] Ex 1511.
[11] Soldados liberados de funções mais pesadas que exerciam o policiamento e o acom­panhamento de oficiais superiores.
[12] Por direito de antigüidade, ainda que apenas como césar, correspondia-lhe a dignida­de de primeiro augusto.
[13] Licínio.
[14] Sl 32(33): 16-19.
[15] Maximino publicou este edito antes de ver-se totalmente perdido em Tarso, provavel­mente com a intenção de ganhar o apoio dos cristãos contra Licínio.
[16] Maximino trata de lançar a culpa sobre os oficiais ou funcionários superiores.
[17] Esta expressão, que já encontramos aplicada a Herodes (vide I:8:5), indica alguma enfermidade grave e mesmo mortal.
[18] Cláudio Culciano, prefeito do Egito, foi quem condenou Fileas e Filoromo (vide VIII:IX:7-X:6).