domingo, 25 de junho de 2017

Estudo 16 - Martírio de Policarpo de Esmirna

16
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Policarpo de Esmirna (69-155)
Martírio de Policarpo de Esmirna

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Provável autoria – Comunidade de Esmirna

Por volta do ano 400, um autor anônimo se faz passar pelo sacerdote Piônio de Esmirna (morto em 250), escreve uma vida de Policarpo. Embora totalmente lendário, insere nela o texto completo, autêntico, da carta da Igreja de Esmirna endereçada à Igreja de Filomélio, relatando o martírio de Policarpo. Trata-se de um texto, no gênero literário epistolar, escrito logo depois da morte de Policarpo (+- 150 d.C), endereçado à Igreja de Filomélio. Este é o primeiro texto cristão que descreve o martírio, e também o primeiro a usar este título de "mártir" para designar um cristão morto pela fé. O texto parece ter sofrido influências de narrações semelhantes do judaísmo de II e III Macabeus. Por sua vez, influenciou o desenvolvimento deste gênero literário entre os cristãos, o que fez Renan declarar: "Este belo trecho constitui o mais antigo exemplo conhecido das Atas de martírio. Foi o modelo que se imitou e que forneceu a marcha e as partes essenciais destas espécies de composições". De fato, parece ser um texto tão importante que leva J. Lebreton a afirmar: "O historiador das origens da religião cristã não poderia desejar um texto mais autorizado". H. Delehaye destaca o valor histórico deste documento afirmando: "É o mais antigo documento hagiográfico que possuímos e não há uma só voz para dizer que existe outro mais belo. Basta relê-lo e pesar cada frase para se persuadir de que esta narração é a que pretende ser a relação de um contemporâneo que conheceu o mártir, o viu no meio das chamas, tocou com suas mãos os restos do santo corpo". É o segundo texto mais antigo que se verifica o uso da expressão "Igreja católica" pelos cristãos primitivos. O Capítulo 20 nos informa que esta "narração sumária" foi redigida por certo Marcião, um irmão da igreja de Esmirna. O copista que transcreveu a carta foi Evaristo. É de fato, um sumário, se se pensa nos onze mártires que precederam Policarpo.

MARTÍRIO DE POLICARPO DE ESMIRNA
A Igreja de Deus que vive como estrangeira em Esmirna, para a Igreja de Deus que vive como estrangeira em Filomélio e para todas as comunidades da santa Igreja católica que vivem como estrangeira em todos os lugares. Que a misericórdia, a paz e o amor de Deus e de nosso Senhor Jesus Cristo sejam abundantes.

CAPÍTULO I 1. Irmãos, nós vos escrevemos a respeito dos mártires e do bem-aventurado Policarpo, que fez a perseguição cessar, selando-a com seu martírio. Quase todos os acontecimentos se realizaram para que o Senhor nos mostrasse novamente um martírio segundo o Evangelho. 2. De fato, como o Senhor, ele esperou ser libertado, para que também nós nos tornássemos seus imitadores, não olhando só para nós, mas também para o próximo. É próprio do amor verdadeiro e firme querer salvar não só a si mesmo, mas também a todos os irmãos.

CAPÍTULO II 1. Felizes e generosos todos os mártires que surgem segundo a vontade de Deus. De fato, é necessário que tenhamos fé, para atribuir a Deus o poder sobre todas as coisas. 2. Quem não admiraria a generosidade deles, a perseverança e o amor ao Senhor? Dilacerados pelos flagelos a ponto de ser ver a constituição do corpo até as veias e artérias, permaneciam firmes, enquanto os presentes choravam de compaixão. A sua coragem chegou a tal ponto que nenhum deles disse uma palavra ou emitiu um gemido. Eles mostravam em seus corpos, mas que o Senhor, aí presente, conservava com eles. 3. Atentos à graça de Cristo, eles desprezavam as torturas deste mundo e adquiriram, em uma hora, a vida eterna. O fogo dos torturadores desumanos era frio para eles. De fato, tinham diante dos olhos escapar do (fogo) eterno, que jamais se extingue; com os olhos do coração olhavam os bens reservados à perseverança, bens que o ouvido não ouviu, nem o olho viu, nem o coração do homem sonhou, mostrados pelo Senhor àqueles que não que não eram mais homens, mas que já eram anjos. 4. Do mesmo modo, os que foram entregues às feras suportaram suplícios terríveis. Estendidos sobre conchas, eram submetidos a todo tipo de tormentos, para que fossem induzidos a renegar, se possível, por meio do suplício contínuo.

CAPÍTULO III 1. O diabo maquinava muitas coisas contra eles; graças a Deus, porém, não prevaleceu contra nenhum deles. O generoso Germânico fortalecia a timidez deles através de sua perseverança. Ele foi admirável na luta contra as feras. O procônsul queria que ele cedesse e lhe dizia que tivesse piedade de sua própria juventude. Ele, porém, atiçando a fera, a chamava para si, desejando estar quanto antes livre desta vida injusta e iníqua. 2. Então, a multidão toda, admirada diante da coragem da piedosa e crente geração dos cristãos, gritou: "Abaixo os ateus! Trazei Policarpo."

CAPÍTULO IV 1. Um dentre eles, chamado Quinto, frígio recentemente vindo da Frígia, ficou apavorado à vista das feras. Era ele que havia forçado a si mesmo e a outros e a comparecerem ao tribunal. O procônsul, através de muita insistência, conseguiu persuadi-lo a jurar e sacrificar. Por isso, irmãos, não louvamos aqueles que se apresentam espontaneamente, pois não é isso que o Evangelho ensina.

CAPÍTULO V 1. Quanto a Policarpo, ele inicialmente não se perturbou ao ouvir isso, mas quis permanecer na cidade. A maioria, porém, o persuadiu a se afastar. Então ele se refugiou numa propriedade pequena, não longe da cidade, e passou o tempo com poucos (companheiros). Noite e dia, ele não fazia senão rezar por todos e por todas as igrejas do mundo, como era seu costume. 2. Rezando, ele teve uma visão, três dias antes de o prenderem: viu seu travesseiro queimado pelo fogo. Voltando-se para os seus companheiros, disse: "Devo ser queimado vivo!".

CAPÍTULO VI 1. Como persistiam em procurá-lo, transferiu-se para outra pequena propriedade, e logo chegaram os que o procuravam. Não o encontrando, prenderam dois pequenos escravos, e um deles torturado confessou. Era-lhe, de fato, impossível permanecer escondido, porque até mesmo os de sua casa o traíram. O chefe da polícia, que tinha recebido o nome de Herodes, tinha pressa em levá-lo para o estádio, a fim de que Policarpo realizasse o seu destino, entrando em comunhão com Cristo, enquanto aqueles que o tinham entregue recebessem o castigo do próprio Judas.

CAPÍTULO VII 1. Numa sexta-feira, pela honra da ceia, guardas e cavaleiros, armados como de costume, tomaram consigo o escravo e partiram, como se estivessem perseguindo um bandido. Chegando pela noite, encontraram-no deitado num pequeno quarto do piso superior. Ele podia ainda fugir daí para outro lugar, mas não quis, e disse: "Seja feita a vontade de Deus". 2. Ouvindo que tinham chegado, ele desceu e conversou com eles, que ficaram espantados com a sua idade venerada, com a sua calma, e com tanta preocupação por capturar um homem tão velho. Ele imediatamente mandou que lhes dessem de comer e beber à vontade, e pediu que lhe concedessem uma hora para rezar tranqüilamente. 3. E lhe concederam. Então ele, de pé, começou a rezar, tão repleto da graça de Deus, que por duas horas ninguém pôde interrompê-lo. Os que ouviam ficaram espantados, e muitos se arrependeram de ter vindo prender um velho tão santo.

CAPÍTULO VIII 1. Quando por fim terminou de rezar, lembrou-se de todos aqueles que tinha conhecido, pequenos e grandes, ilustres e obscuros, e de toda a Igreja Católica espalhada por toda a terra. Chegando a hora de partir, fizeram-no montar sobre um jumento e o levaram para a cidade. Era o dia do grande sábado. 2. Herodes, o chefe da polícia, e seu pai Nicetas foram até ele. Fizeram-no subir ao seu carro e, sentando-se ao seu lado, procuravam persuadi-lo, dizendo: "Que mal há em dizer que César é o Senhor, oferecer sacrifícios e fazer tudo o mais para salvarse?" De início, ele nada respondeu. Como insistissem, ele falou: "Não farei o que vós estais me aconselhando." 3. Não conseguindo persuadi-lo, lançaram-lhe todo tipo de injúrias, e o fizeram descer do carro tão apressadamente que ele se feriu na parte da frente da perna. Sem se voltar, como se nada houvesse acontecido, ele caminhou alegremente em direção ao estádio. Aí o tumulto era tão grande que ninguém conseguia escutar ninguém.

CAPÍTULO IX 1. Quando Policarpo entrou no estádio, veio do céu uma voz, dizendo: "Sê forte, Policarpo! Sê homem!" Ninguém viu quem tinha falado, mas alguns dos nossos que estavam presentes ouviram a voz. Finalmente o fizeram entrar e, quando souberam que Policarpo fora preso, levantou-se grande tumulto. 2. Levado até o procônsul, este lhe perguntou se ele era Policarpo. Respondeu que sim. E o procônsul procurava fazê-lo renegar, dizendo: "Pensa na tua idade", e tudo o mais que se costumava dizer, como: "Jura pela fortuna de César! Muda teu modo de pensar e dize: 'Abaixo os ateus!'" Policarpo, contudo, olhava severamente toda a multidão de pagãos cruéis no estádio, fez um gesto para ela com a mão suspirou, elevou os olhos e disse: "Abaixo os ateus!" 3. O chefe da polícia insistia: "Jura, e eu te liberto. Amaldiçoa o Cristo!" Policarpo respondeu: "Eu o sirvo há oitenta e seis anos, e ele não me fez nenhum mal. Como poderia blasfemar o meu rei que me salvou?"

CAPÍTULO X 1. Ele continuava a insistir, dizendo: "Jura pela fortuna de César!" Policarpo respondeu: "Se tu pensas que vou jurar pela fortuna de César, como dizes, e finges ignorar quem sou eu, escuta claramente: eu sou cristão. Se queres aprender a doutrina do cristianismo, concede-me um dia e escuta." O procônsul respondeu: "Convence o povo!" 2. Policarpo replicou: "A ti eu considero digno de escutar a explicação. Com efeito, aprendemos a tratar as autoridades e os poderes estabelecidos por Deus com o respeito devido, contanto que isso não nos prejudique. Quanto a esses outros, eu não os considero dignos, para me defender diante deles."

CAPÍTULO XI 1. O procônsul disse: "Eu tenho feras, e te entregarei a elas, se não mudares de idéia." Ele disse: "Pode chamá-las. Para nós, é impossível mudar de idéia, a fim de passar do melhor para o pior; mas é bom mudar, para passar do mal à justiça." 2. O procônsul insistiu: "Já que desprezas as feras, eu te farei queimar no fogo, se não mudares de idéia." Policarpo respondeu-lhe: "Tu me ameaças com um fogo que queima por um momento, e pouco depois se apaga, porque ignoras o fogo do julgamento futuro e do suplício eterno, reservado para os ímpios. Mas por que tardar? Vai e faze o queres."

CAPÍTULO XII 1. Dizendo isso e tantas outras coisas, ele permanecia cheio de força e alegria, e seu rosto estava repleto de graça. Ele não só não se deixou abater pelas ameaças que lhe eram dirigidas, mas o próprio procônsul ficou estupefato e mandou seu arauto ao meio do estádio, para anunciar três vezes: "Policarpo se declarou cristão!" 2. A essas palavras do arauto, toda a multidão de pagão e judeus moradores de Esmirna, com furor incontido, começou a gritar: "Eis o mestre da Ásia, o pai dos cristãos, o destruidor de nosso deuses! É ele que ensina muita gente a não sacrificar e a não adorar." Dizendo isso, gritavam e pediam ao asiarca Filipe que lançasse um leão contra Policarpo. Este respondeu que não lhe era lícito, pois os combates de feras já haviam terminado. 3. Então unânimes se puseram a gritar que Policarpo fosse queimado vivo. Devia cumprir a visão que lhe fora mostrada: enquanto rezava, ele tinha visto o travesseiro pegando fogo, e dissera profeticamente aos fiéis que estavam com ele: "Devo ser queimado vivo."

CAPÍTULO XIII 1. Então as coisas caminharam rapidamente, mais depressa do que dizê-las. Imediatamente a multidão começou a recolher lenha e feixes tirados das oficinas e termas. Sobretudo os judeus se deram a isso com mais zelo, segundo o costume deles. 2. Quando a pira ficou pronta, o próprio Policarpo se despiu, desamarrou o cinto, e ele mesmo tirou o calçado. Ele nunca fizera isso antes, porque sempre cada um dos fiéis se apressava a ser o primeiro a tocar-lhe o corpo; mesmo antes do martírio, ele já fora constantemente venerado pela sua santidade de vida. 3. Imediatamente colocaram em torno dele o material preparado para a pira. Como queriam pregá-lo, ele disse: "Deixai-me assim. Aquele que me concede força para suportar o fogo, dar-me-á força para permanecer imóvel na fogueira, também sem proteção de vosso pregos."

CAPÍTULO XIV 1. Então não o pregaram, mas o amarraram. com suas mãos amarradas atrás das costas, ele parecia um cordeiro escolhido de grande rebanho para o sacrifício, holocausto agradável preparado para Deus. Erguendo os olhos ao céu, disse: "Senhor, Deus todo-poderoso, Pai de teu Filho amado e bendito, Jesus Cristo, pelo qual recebemos o conhecimento do teu nome, Deus dos anjos, dos poderes de toda criação, e de toda geração de justos que vivem na tua presença! 2. Eu te bendigo por me teres julgado digno deste dia e desta hora, de tomar parte entre os mártires, e do cálice de teu Cristo, para a ressurreição da vida eterna da alma e do corpo, na incorruptibilidade do Espírito Santo. Com eles, possa eu hoje ser admitido à tua presença como sacrifício gordo e agradável, como tu preparaste e manifestaste de antemão, e como realizaste, ó Deus sem mentira e veraz. 3. Por isso e por todas as outras coisas, eu te louvo, te bendigo, te glorifico, pelo eterno e celestial sacerdote Jesus Cristo, teu Filho amado, pelo qual seja dada a glória a ti, como ele o Espírito, agora e pelos séculos futuros. Amém.

CAPÍTULO XV 1. Quando ele ergueu o seu Amém e terminou sua oração, os homens da pira acenderam o fogo. Grande chama brilhou e nós vimos o prodígio, nós a quem foi dado ver e que fomos preservados para anunciar estes acontecimentos a outros. 2. O fogo fez uma espécie de abóbada, como vela de navio inflada pelo vento, e envolveu como parede o corpo do mártir. Ele estava no meio, não como carne que queima, mas como pão que assa, como ouro ou prata brilhando na fornalha. Sentimos então um perfume semelhante a baforada de incenso ou outro aroma parecido.

CAPÍTULO XVI 1. Por fim, vendo que o fogo não podia consumir o seu corpo, os ímpios ordenaram ao carrasco que fosse dar o golpe de misericórdia com o punhal. Feito isso, jorrou tanto sangue que apagou o fogo. Toda a multidão admirou-se de ver tão grande diferença entre os incrédulos e os eleitos. 2. Entre estes, o admirável mártir Policarpo, que foi, em nosso dias, mestre apostólico e profético, o bispo da Igreja católica de Esmirna. Toda palavra que saiu de sua boca se cumpriu e se cumprirá.

CAPÍTULO XVII 1. Contudo, o invejoso, o perverso e o mau, o adversário da geração dos justos, vendo a grandeza do seu testemunho e de sua vida irrepreensível desde o início, vendo-o ornado com a coroa da incorruptibilidade e conquistando uma recompensa incontestável, procurou impedir-nos de levar o corpo, embora muitos de nós o desejassem fazer e possuir sua carne santa. 2. Ele sugeriu a Nicetas, pai de Herodes e irmão de Alce, que procurasse o magistrado, a fim que ele não nos entregasse o corpo. Ele disse: "Não aconteça que eles, abandonando o crucificado, passem a cultuar esse aí." Dizia essas coisas por sugestão insistente dos judeus, que nos tinham vigiado quando queríamos retirar o corpo do fogo. Ignoravam eles que não poderíamos jamais abandonar Cristo, que sofreu pela salvação de todos aqueles que são salvos no mundo, como inocente em favor dos pecadores, nem prestarmos culto a outro. 3. Nós o adoramos, porque é o Filho de Deus. Quanto aos mártires, nós os amamos justamente como discípulos e imitadores do Senhor, por causa da incomparável devoção que tinham para com o rei e mestre. Pudéssemos nós também ser seus companheiros e condiscípulos!

CAPÍTULO XVIII 1. Vendo a rixa suscitada pelos judeus, o centurião colocou o corpo no meio e o fez queimar, como era de costume. 2. Desse modo, pudemos mais tarde recolher seus ossos, mais preciosos do que pedras preciosas e mais valiosos do que o ouro, para colocá-los em lugar conveniente. 3. Quando possível, é aí que o Senhor nos permitirá reunir-nos, na alegria e contentamento, para celebrar o aniversário de seu martírio, em memória daqueles que combateram antes de nós, e para exercitar e preparar aqueles que deverão combater no futuro.

CAPÍTULO XIX 1. Essa é a história do bem-aventurado Policarpo, que foi, juntamente com os irmãos da Filadélfia, o décimo segundo a sofrer o martírio em Esmirna. Contudo, apenas dele se guarda a lembrança mais do que dos outros, a ponto de até os próprios pagãos falarem dele por toda parte. Ele foi, não apenas mestre célebre, mas também mártir eminente, cujo martírio segundo o Evangelho de Cristo todos desejam imitar. Por sua perseverança, ele triunfou sobre o iníquo magistrado, e assim foi cingido com a coroa da incorruptibilidade. Juntamente com os apóstolos e todos os justos, na alegria, ele glorifica a Deus, Pai todo-poderoso, e bendiz nosso Senhor Jesus Cristo, o salvador de nossas almas, guia de nossos corpos, e pastor da Igreja católica no mundo inteiro.

CAPÍTULO XX 1. Havíeis pedido para ser informados com mais pormenores sobre esses acontecimentos. Por enquanto vos demos uma narração resumida por intermédio do nosso irmão Marcião. Quando tomardes conhecimento desta carta, transmiti-a aos irmão que estão mais longe, para que também eles glorifiquem o Senhor, que fez sua escolha entre seus servidores. 2. Àquele que, pela sua graça e pelo seu dom, nos pode introduzir no seu reino eterno, por seu Filho único Jesus Cristo, a ele a glória, a honra, o poder e a grandeza pelos séculos. Saudai todos os santos. Aqueles que estão conosco vos saúdam, e também Evaristo, que escreveu esta carta, com toda a sua família.

CAPÍTULO XXI 1. O bem-aventurado Policarpo deu testemunho no início do mês Xântico, no décimo segundo dia, o sétimo dia antes das calendas de março, dia do grande sábado, na oitava hora. Ele fora preso por Herodes, sob o pontificado de Filipe de Trália e do proconsulado de Estácio Quadrato, mas sob o reino eterno de nosso Senhor Jesus Cristo, a quem seja dada a glória, a honra, a grandeza, o trono eterno de geração em geração Amém.

CAPÍTULO XXII (Apêndice) 1. Nós vos desejamos boa saúde. Irmãos, andai segundo o Evangelho, na palavra de Jesus Cristo. Com ele, glória a Deus Pai e ao Espírito Santo, para a salvação dso santos eleitos. Foi assim que o bem-aventurado Policarpo testemunhou. Possamos nós caminhar em suas pegadas e sermos encontrados com ele no Reino de Deus. 2. Gaio transcreveu estas coisas de Ireneu, discípulo de Policarpo; ele viveu com Ireneu. Eu, Sócrates, as copiei em Corinto, da cópia de Gaio. A graça esteja com todos. 3. Por minha vez, eu, Piônio, copiei do exemplar acima, que procurei, depois que o bem-aventurado Policarpo o mostrou a mim em revelação, como contarei em seguida. Reuni os fragmentos quase destruídos pelo tempo. Que o Senhor Jesus Cristo me reúna também com seus eleitos no Reino do céu. A ele seja dada a glória com o Pai e o Espírito Santo, pelos séculos dos séculos. Amém. Apêndice do manuscrito de Moscou: 1. Gaio copiou essas coisas dos escritos de Ireneu; ele viveu com Ireneu, que foi discípulo de Policarpo. 2. Esse Ireneu, que esteve em Roma na época do martírio do bispo Policarpo, instruiu muita gente. Temos dele numerosos escritos muito belos e ortodoxos. Ele mencionou Policarpo, dizendo que tinha sido discípulo dele. Refutou vigorosamente todas as heresias e nos transmitiu a regra eclesiástica e católica, tal como havia recebido do santo. 3. Ele diz também o seguinte: Marcião, do qual provém aqueles que se chamam marcionitas, certo dia, indo ao encontro de são Policarpo, lhe diz: "Reconhece-nos, Policarpo!" Este respondeu a Marcião: "Eu reconheço, reconheço o primogênito de satanás." 4. Lê-se também o seguinte nos escritos de Ireneu: No dia e na hora em que Policarpo sofria o martírio em Esmirna, Ireneu, encontrando-se em Roma, ouviu uma voz parecida com trombeta que dizia: "Policarpo foi martirizado." 5. Como foi dito, é dos escritos de Ireneu que Gaio copiou essas coisas. Em Corinto, Isócrates transcreveu da cópia de Gaio. E eu, Piônio, copiei do exemplar de Isócrates, que procurei, depois de uma revelação de sao Policarpo. Reuni os fragmentos quase destruídos pelo tempo. Que o Senhor Jesus Cristo me reúna também com seus eleitos na glória do céu. A ele seja dada a glória com o Pai e o Espírito Santo, pelos séculos dos séculos. Amém.


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segunda-feira, 19 de junho de 2017

15 - Epístola de Policarpo aos Filipenses

15
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Policarpo de Esmirna (69-155)
Epístola de Policarpo aos Filipenses

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Policarpo e os presbíteros que estão junto dele, à Igreja de Deus que está em Filipos: Piedade a vocês, e paz do Todo-poderoso Deus, e do Senhor Jesus Cristo, nosso Salvador, sejam multiplicadas.

I. Exortação aos Filipenses Tenho me alegrado grandemente convosco em nosso Senhor Jesus Cristo, pois vocês têm seguido o exemplo do verdadeiro amor [como mostrado por Deus], e tenho acompanhado, assim como vocês, todos aqueles que estão acorrentados, os ornamentos dos santos, e aqueles que são de fato os diademas dos verdadeiros eleitos de Deus e de nosso Senhor; e porque as fortes raízes de vossa fé, falando de dias a muito tempo transcorridos, suportaram até agora, e trouxeram frutos a nosso Senhor Jesus Cristo, que por nossos pecados sofreu até a morte, [mas] "que Deus ressuscitou da morte, tendo afrouxado as faixas do túmulo". "No qual, embora não O vejam, acreditem, e acreditando, regojizem-se em inexprimível alegria e cheios de glória"; onde todos os homens desejam entrar, sabendo que "pela graça vocês serão salvos, não pelas obras", mas pela vontade de Deus através de Jesus Cristo.

II. Exortação à Virtude. Por causa disso, cinjam suas cinturas, "sirvam o Senhor no temor" e na verdade, como aquele que tem renunciado ao inútil, as conversas vãs e os erros da multidão, e "acreditado nAquele que ressuscitou nosso Senhor Jesus Cristo da morte, e Lhe deu a glória", e um trono a sua direita. Por Ele todas as coisas no Céu e na Terra estão subordinadas. A Ele todo espírito serve. Ele vem como o Juiz dos viventes e dos mortos. Deus pedirá conta do sangue dEle por aqueles que não acreditam nEle. Mas Aquele que ressuscitou dentre os mortos também nos ressuscitará, se fizermos sua vontade e seguirmos seus mandamentos, e se amarmos o que Ele amou, abstendo-nos de toda injustiça, arrogância, amor ao dinheiro, murmurações, falsos testemunhos, "não pagando mal por mal, injúria por injúria", golpe por golpe, maldição por maldição, mas sendo misericordiosos por causa do que o Senhor disse em seus ensinamentos: "Não julguem para não serem julgados; perdoem e serão perdoados; sejam misericordiosos e alcançarão misericórdia; pois com o que medirem vocês serão medidos"; e uma vez mais: "Abençoados são os pobres, e aqueles que são perseguidos por causa da verdade, pois deles é o Reino de Deus".

III. Fé, esperança e caridade. Não é por mim mesmo, irmãos, que lhes escrevo sobre a justiça, e sim porque vocês me pediram primeiro. Pois nem eu, nem ninguém como eu, pode chegar a sabedoria do abençoado e glorificado Paulo. Ele, estando entre vocês, comunicou com exatidão e força a palavra da verdade na presença daqueles que estão vivos ainda. E quando vos deixou, escreveu-lhes uma carta, que, se a estudarem com cuidado, encontrarão o sentido de terem sido erguidos na fé que lhes foi dada, e que, sendo seguida da esperança e precedida pelo amor para com Deus e Cristo, assim como para nosso próximo, "é a mãe de todos nós". Pois todo aquele que permanecer nessas virtudes, este cumpriu os mandamentos da justiça. Pois quem permanece na caridade está longe de todo pecado.

IV. Várias exortações. "Mas o amor pelo dinheiro é a raiz de todo os males". Sabendo, por tanto, que assim como nós não trouxemos nada ao mundo, nós não podemos levar nada dele", revistamse com a arma da justiça; e aprendamos nós mesmos, antes de tudo, a caminhar nos mandamentos do Senhor. Depois, [ensinem] suas esposas [a andar] na fé dada a elas, e na caridade e na pureza, amando ternamente seus únicos maridos com toda a fidelidade, e amando todos [os outros] igualmente com toda a castidade; e a educar suas crianças no conhecimento e no temor de Deus. Ensinem as viuvas a serem discretas, como diz a fé de nosso Senhor, orando continuamente por todos, permanecendo longe de toda calúnia, murmuração, falso testemunho, amor ao dinheiro, e todo tipo de mal; sabendo que são o altar de Deus, que percebe claramente todas as coisas, e que nada Lhe é escondido, nem raciocínios, nem pensamentos, nem as coisas secretas do coração.

V. Os deveres dos diáconos, jovens e virgens. Sabendo, portanto, que "Deus não é fingido", precisamos caminhar dignos de Seus mandamentos e de sua glória. Da mesma maneira os diáconos devem ser inocentes diante da face de Sua justiça, como sendo servos de Deus e de Cristo, e não dos homens. Eles não devem ser caluniadores, falsos, ou amantes do dinheiro, mas temperados em tudo, misericordiosos, trabalhadores, andando de acordo com os mandamentos do Senhor, que foi o servo de todos. Se lhe somos agradáveis no tempo presente, também receberemos o mundo vindouro, de acordo com o que Ele prometeu a nós, de que Ele nos ressuscitará da morte, e que se nós vivemos condizentes com Ele, "nós reinaremos junto com Ele" se ao menos tivermos fé. Da mesma maneira, que os jovens também sejam irrepreensíveis em todas as coisas, sendo especialmente cuidadosos para preservar a pureza, e mantendo-se, como que um freio, de todo tipo de mal. Pois é bom que eles cortem fora toda a luxúria que existe neste mundo, pois "todo desejo da carne luta contra o espírito"; e "nenhum fornicador, nem efeminado, nem aquele que abusa de si mesmo com os outros terá parte no reino de Deus", nem quem faz ações inconsistentes e indevidas. Por isso, é preciso que eles se abstenham de todas essas coisas, permanecendo obedientes aos presbíteros e diáconos, assim como a Deus e a Cristo. As virgens devem andar com uma consciência inocente e pura.

VI. Os deveres dos presbíteros e dos outros. Os presbíteros devem ser compassivos e misericordiosos com todos, trazendo de volta aqueles que sairam do caminho reto, visitando os doentes, sem desprezar a viúva, o órfão, ou o pobre, mas sempre "provendo a estes o que é bom diante de Deus e dos homens"; abstendo-se de toda cólera, respeitando as pessoas, e não fazendo julgamentos injustos; mantendo-se longe de toda cobiça, sem pensar mal rapidamente de ninguém, sem serem severos demais nos julgamentos, sabendo que nós todos estamos sobre o débito do pecado. E se nós suplicamos ao Senhor para nos perdoar, também nós devemos perdoar os outros; pois nós estamos diante dos olhos de nosso Senhor e Deus, e "todos nós deveremos comparecer ao tribunal de Cristo, e deveremos todos dar conta de nós mesmos". Por isso devemos serví-lo no temor, e com toda e reverência, conforme Ele mesmo nos manda, da mesma maneira que os apóstolos nos ensinaram no Evangelho, e da mesma maneira que os profetas proclamaram a vinda do Senhor. Sejamos zelosos na busca do que é bom, mantendo-nos longe das causas de ofensa, de falsos irmãos, e daqueles que hipocritamente proclamam o nome do Senhor, fazendo os homens vãos caírem no erro.

VII. Contra o docetismo. Perseverar no jejum e na oração. "Pois que não confessar que Jesus Cristo veio na carne [encarnou], este é anticristo"; e quem não confessar o testemunho da cruz, este é do demônio; e quem perverter as profecias do Senhor para sua própria satisfação, e diz que não há nem ressurreição nem julgamento, este é o primeiro nascido de Satanás. Por isso abandonemos os discursos vãos das multidões, e suas falsas doutrinas, e voltemos aos ensinamentos que nos foram dados desde o princípio; "permaneçamos sóbrios na oração", e perseveremos no jejum; suplicando em nossas orações ao Deus que vê tudo "para que não nos deixe cair em tentação", pois o Senhor disse: "O espírito está pronto, nas a carne é fraca".

VIII. Perseverar na esperança e na paciência. Continuemos perseverando em nossa esperança, nas primícias da justiça, que é Jesus Cristo, "que carregou nossos pecados em seu próprio corpo no madeiro da cruz", "que não cometeu pecado, nem foi achada astúcia em Sua boca", mas suportou todas as coisas por nós, para que pudéssemos viver nEle. Sejamos imitadores de Sua paciência; e se nós sofremos pelo nome dEle, seremos glorifiquemos Ele. Pois este é o exemplo que Ele mesmo nos deu, e que nós temos acreditado.

IX. Exortação à paciência. Eu os exorto, portanto, a obedecerem atenciosamente à palavra da justiça, e a exercitarem a paciência, assim como vocês têm visto diante de seus olhos, não somente no caso dos abençoados Inácio, Zózimo e Rufo, mas também no caso dos outros que estão entre vocês, no próprio Paulo, e no restante dos apóstolos. [Façam isso] na certeza de que todos estes não caminharam em vão, mas na fé a na justiça, e na certeza de que eles estão [agora] no lugar que lhes corresponde na presença do Senhor, com quem eles também sofreram. Eles não amaram o século presente, mas Aquele que morreu por nós e que, por nossa causa, foi ressuscitado por Deus da morte.

X. Exortação na prática da virtude. Permaneçam, portanto, nestas coisas, e sigam o exemplo do Senhor, permanecendo firmes e imutáveis na fé, amando o próximo, e permanecendo unidos uns aos outros, gozando juntos da verdade, mostrando a mansidão do Senhor nas suas relações com o próximo, sem desprezar ninguém. Quando puderem fazer o bem, não o posterguem, pois "a esmola livra da morte". Todos vocês estão submetidos uns aos outros tendo uma conduta justa entre os gentios, para que vocês recebam em dobro a recompensa de suas boas obras, e para que o Senhor não seja blasfemado por causa de vocês. Mas coitado é aquele por quem o nome do Senhor é blasfemado! Ensinem, portanto, a sobriedade a todos, e a manifestem em sua própria conduta.

XI. Expressão de pena por causa de Valente. Eu estou muito triste por Valente, que foi presbítero entre vocês, pois ele não entendeu completamente o cargo que foi lhe dado [na Igreja]. Exorto-os, portento, que se abstenham da avareza, e que sejam castos e verdadeiros. "Abstenham-se de todo tipo de mal". Pois se um homem não pode se governar nestes assuntos, como pode ensina-los aos outros? Se um homem não se mantém longe da avareza, ele se desonra pela idolatria, e deve ser julgado como um dos pagãos. Mas quem de nós está ignorando o julgamento do Senhor? "Não sabemos nós que os santos devem julgar o mundo?", como Paulo ensina. Mas eu nem vi nem ouvi nada semelhante entre vocês, no meio daqueles com quem Paulo trabalhou, e que estão louvados no início de sua epístola. Com efeito, ele se gloria de vocês diante de todas as Igrejas que sozinhas conheciam o Senhor; mas nós [de Esmirna] ainda não O conhecíamos. Eu estou profundamente entristecido, pois, irmãos, por ele (Valente) e por sua esposa; a quem o Senhor talvez conceda uma penitência verdadeira! E sejam vocês sóbrios em atenção e este assunto, e "não os olhe como inimigos", mas chame-os de volta como membros sofredores e perdidos, pois vocês devem salvar todo o corpo. Agindo assim vocês edificam-se a si mesmos.

XII. Exortação a várias virtudes. Por isso acredito que vocês estão bem versados nas Sagradas Escrituras, e que nada é escondido de vocês; mas a mim este privilégio não é ainda garantido. Pois está declarado nas Escrituras, "Enfureçam-se, e não pequem mais", e "Não deixem que o Sol se ponha sobre sua ira". Feliz é quem se lembra disso, o que eu acredito seja o caso de vocês. Que o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, e Ele mesmo, que é o Filho de Deus, e nosso eterno Pontífice edifique-os na fé e na verdade, e em toda mansidão, gentileza, paciência, magnanimidade, tolerância e pureza; e Ele lhes dê parte de sua herança entre os santos, e a nós convosco, e a todos os que estão debaixo do céu, que crêem em nosso Senhor Jesus Cristo, e em Seu Pai, que "O ressuscitou dentre os mortos". Orem por todos os santos. Orem também pelos reis, e pelas autoridades, e príncipes, e por aqueles que vos perseguem e vos odeiam, e pelos inimigos da cruz, de modo que seu fruto seja manifestado a todos, e que vocês sejam perfeitos nEle.

XIII. A respeito da transmissão das cartas. Vocês e Inácio escreveram-me, para que se alguém for [daqui] para a Síria, que levassem a carta de vocês; eu atenderei esta requisição se eu encontrar uma boa oportunidade, pessoalmente, ou através de uma outra pessoa, que vos sirva de mensageiro. Quanto às cartas de Inácio, as que ele nos enviou e as outras que pudermos ter aqui, nós vo-las enviaremos como pedistes. Vão anexas. Podereis retirar delas grande utilidade; pois encerram fé, paciência e toda espécie de edificação relativas a nosso Senhor. Qualquer outra informação que vocês conseguirem a respeito de Inácio e daqueles que estão com ele, tenham a gentileza de nos informar.

XIV. Conclusão. Estas coisas eu tenho escrito a vocês através de Crescente, a quem recentemente lhes recomendei e agora lhes recomendo novamente. Ele tem crescido irrepreensível entre nós, e eu creio que será da mesma maneira entre vocês. Também vocês irão receber sua irmã, quando ela chegar entre vocês. Sejam salvos em nosso Senhor Jesus Cristo [Incolumes estote in domino Iesu Christo]. Que a graça esteja com todos vocês. Amém.

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segunda-feira, 12 de junho de 2017

14 - Policarpo de Esmirna (69-155) - A Vida de Policarpo

14
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Policarpo de Esmirna (69-155)
A Vida de Policarpo


  

Nascido em uma família cristã da alta burguesia no ano 69, em Esmirna, Ásia Menor, atual Turquia. Os registros sobre sua vida nos foram transmitidos pelo seu biógrafo e discípulo predileto, Irineu.
Policarpo foi discípulo do apóstolo João, e teve a oportunidade de conhecer outros apóstolos que conviveram com o Mestre. Ele se tornou um exemplo íntegro de fé e vida, sendo respeitado inclusive pelos adversários. Dezesseis anos depois, Policarpo foi escolhido e consagrado para ser o bispo de Esmirna para a Ásia Menor, pelo próprio apóstolo João, o Evangelista.
Policarpo de Esmirna foi bispo da igreja de Esmirna do século II. De acordo com a obra "Martírio de Policarpo", ele foi apunhalado quando estava amarrado numa estaca para ser queimado-vivo e as chamas milagrosamente não o tocavam.
Policarpo havia sido discípulo do apóstolo João, fato atestado pelo Bispo Ireneu de Lyon, que ouviu-o discursar quando jovem, e por Tertuliano.
A tradição primitiva que foi expandida pelo "Martírio...", ligando Policarpo em contraste com o apóstolo João que, apesar de muitas tentativas de assassinato, não foi martirizado e teria morrido de velhice após ser exilado para a ilha de Patmos, se baseia nos chamados "Fragmentos de Harris", papiros fragmentários em copta datados entre os séculos III e VI.
Com Bispo de Roma Clemente e Bispo Inácio de Antioquia, Policarpo é considerado um dos três principais Padres Apostólicos. A única obra sobrevivente atribuída a ele é a Epístola de Policarpo aos Filipenses, relatada pela primeira vez por Ireneu.

I. Vida
Há duas fontes principais para informações sobre a vida de Policarpo: o "Martírio de Policarpo", uma carta aos esmirniotas recontando seu martírio, e as passagens na Adversus Haereses de Ireneu de Lyon. Outras fontes são as Epístolas de Inácio, entre elas uma para Policarpo e outra para os esmirniotas, e a própria epístola aos filipenses.

II. Papias
De acordo com Ireneu, Policarpo era companheiro de Papias de Hierápolis, outro que "ouviu João", nas palavras de Ireneu ao interpretar o testemunho de Papias, e um correspondente de Inácio de Antioquia. Este endereçou-lhe uma carta e o menciona em suas próprias correspondências com os efésios e com os magnésios.
Ireneu considerava a memória de Policarpo como sendo uma ligação direta com o passado apostólico. Ele relata quando e como ele se tornara cristão e, em sua epístola a Florinus, afirmou ter visto e ouvido Policarpo pessoalmente na Ásia Menor. Ele relata, principalmente, ter ouvido o relato da discussão de Policarpo com "João, o Presbítero" e com outros que haviam visto Jesus. Ireneu também reporta que Policarpo se convertera pelas mãos dos apóstolos e por eles foi consagrado bispo (segundo Jerônimo, por João). Diversas vezes ele enfatiza a idade avançada de Policarpo.

III. Visita a Aniceto
De acordo com Ireneu, durante o papado de seu conterrâneo sírio, Aniceto, nas décadas de 150 ou 160, Policarpo visitou Roma para discutir as diferenças que existiam entre as práticas asiáticas e romanas "com relação a certas coisas" e especialmente sobre a data da Páscoa. Ireneu afirma que sobre "certas coisas" os dois bispos rapidamente chegaram num acordo, enquanto que sobre a Páscoa, cada um continuou aderindo às suas próprias tradições, sem contudo quebrar com a comunhão entre as igrejas. Policarpo seguia a prática oriental de celebrar a Páscoa no 14 de Nisan, o dia da Pessach judaica, sem se preocupar em qual dia da semana ele caía, enquanto que em Roma a Páscoa era celebrada sempre aos domingos.
Aniceto - as fontes romanas concedem este ponto como sendo uma honraria especial - permitiu que Policarpo celebrasse a Eucaristia em sua própria igreja.
Ainda estando em Roma, Policarpo conheceu alguns hereges gnósticos valentianos (inclusive Valentim), e encontrou-se com Marcião, a quem Policarpo chamava de "primogênito de Satanás".

IV. Martírio
O "Martírio..." relata que Policarpo, no dia de sua morte, disse "Por oitenta e seis anos, eu O servi", o que poderia indicar que ele teria então esta idade ou que ele teria vivido este tempo após ter se convertido. Ele prossegue dizendo "Como então posso ter blasfemado contra meu Rei e Salvador? Prossigais com tua vontade." 
Policarpo foi então queimado vivo na estaca por se recusar a acender incenso para o imperador romano.
A data da morte é disputada. Eusébio a coloca no reinado de Marco Aurélio (166 – 167dC), porém, uma adição pós-Eusébio ao "Martírio" coloca a morte num sábado, 23 de fevereiro, durante o proconsulado de Statius Quadratus (155-156dC). Estas datas mais antigas casam melhor com a tradição de sua associação com Inácio de Antioquia e com o apóstolo João. 

V. Grande Sabbath
O "Martírio de Policarpo", que é uma carta aos esmirniotas, afirma que Policarpo foi preso "no dia do Sabbath" e morto no dia do "Grande Sabbath", alguns acreditam que isto seria uma evidência de que os fiéis de Esmirna sob Policarpo observavam a guarda do Sabbath de sete dias.
William Cave escreveu "...o Sabbath ou 'Sábado' (pois a palavra 'sabbatum é constantemente utilizada nas obras dos padres da Igreja quando citam o Sabbath em sua forma cristã) era guardado por eles em grande estima e, especialmente no oriente, honrado com todas as solenidades religiosas públicas."
Outros consideram que a expressão "Grande Sabbath" faz referência à Pessach ou a outro feriado anual.
Outros feriados chamados de "Grande Sabbath" (se a frase de fato faz referência ao que normalmente se considera como sendo um feriado judaico, que eram observados por muitos dos primeiros cristãos) ocorrem na primavera, no final do verão ou no outono. Nunca no inverno (todas as estações se referem ao hemisfério norte).
O "Grande Sabbath" pode ter sido aludido em João 7:37 ("No último, no grande dia da festa..."), que seria um feriado anual que se seguia imediatamente à Festa dos Tabernáculos. É duvidoso, porém, se esta referência bíblica alude a uma prática comum ou a um evento específico.

VI. Obras
A única obra sobrevivente atribuída a Policarpo é a Epístola de Policarpo aos Filipenses enviada em 110., um mosaico de referências às Escrituras em grego, preservada no relato de Ireneu sobre a vida do bispo de Esmirna. Ela, um trecho do "Martírio" que tem a forma de uma carta circular da Igreja de Esmirna para as demais igrejas da província do Ponto, é parte de uma coleção de escritos dos Padres Apostólicos.
Juntamente com os Atos dos Apóstolos, que contém o relato do martírio de Santo Estevão, o "Martírio de Policarpo" é considerado como sendo uma dos mais antigos relatos genuínos de martírios cristãos e um dos poucos relatos sobreviventes compostos na época das perseguições.

VII. Importância
Policarpo ocupa um lugar importante na história do cristianismo primitivo. Ele é contado entre os primeiros cristãos cuja alguma obra sobreviveu. É provável que ele tenha conhecido o apóstolo João, um dos doze apóstolos. Ele era também o ancião de uma importante congregação que teve importante papel na consolidação da Igreja Cristã.
Ireneu escreveu o seguinte sobre ele: "Um homem que era de estatura muito maior e uma testemunha mais firme da verdade do que Valentim, Marcião e o resto dos heréticos [gnósticos]".
Policarpo viveu no período seguinte à morte dos apóstolos, quando uma grande variedade de interpretações sobre o que Jesus havia dito e feito estava sendo pregada. Seu papel foi de autenticar o que seria considerado "ortodoxo" através de sua famosa relação com o apóstolo João: "um grande valor era atribuído ao testemunho que Policarpo poderia dar como sendo a genuína tradição da antiga doutrina apostólica", comentou Henry Wace.

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quarta-feira, 7 de junho de 2017

13 - Aristides de Atenas (+130) - Apologia de Aristides (Cap XIII - XVI)

13
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Aristides de Atenas (+130)
Apologia de Aristides (Cap XIII - XVI)

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CONCLUSÃO SOBRE A FALSA RELIGIÃO POLITEÍSTA

XIII. Assim, se extraviaram gravemente os egípcios, os caldeus e os gregos, introduzindo tais deuses, fazendo imagens deles, e divinizando os ídolos surdos e insensíveis.
E me admira como vendo seus deuses serrados, destruídos pelo fogo, cortados pelos artífices, envelhecidos pelo tempo, dissolvidos e fundidos não compreendam que não existem tais deuses pois, quando nenhuma força possuem para sua própria salvação, como poderão ter providência pelos homens?
Mas seus poetas e filósofos, querendo com seus poemas e obras glorificar os seus deuses, não têm feito outra coisa senão descobrir suas vergonhas e torná-las desnudas para todos; pois, se o corpo do homem, ainda que seja composto por muitas partes, não despreza nenhum de seus membros, mas, conservando-os todos em irrompível unidade, mantendo-se sempre unidos, como poderia ocorrer na natureza de Deus tamanha batalha e discórdia? Ora, se a natureza dos deuses é uma, não deve um deus perseguir outro deus, nem degolá-lo ou machucá-lo. E se os deuses têm perseguido uns aos outros, e se degolaram, roubaram e foram fulminados, já não há uma só natureza, mas pareceres divididos e todos maléficos, de forma que nenhum deles é Deus. Portanto, é claro - ó Rei - que toda a teoria sobre a natureza desses deuses é puro extravio.
E como não compreenderam os gregos sábios e eruditos que, ao estabelecer leis, seus deuses são condenados por essas leis? Pois se as leis são justas, são absolutamente injustos os seus deuses que fizeram coisas contra a lei, como mortes mútuas, feitiçarias, adultérios, roubos e uniões contra a natureza; e se tudo isto que fizeram foi bom, então as leis é que são injustas porque vão contra os deuses. Porém não é isto que ocorre: as leis são boas e justas, pois louvam o bom e proíbem o mau, e as obras dos deuses são ímpias. Ímpios são, portanto, os seus deuses; todos são réus de morte; ímpios também são aqueles que introduzem semelhantes deuses, porque se as histórias que são contadas são mitos, então os deuses não são nada mais que palavras; e se são físicas, já não são deuses os que tais coisas fizeram ou sofreram; e se são alegorias, são estórias e nada mais.
Fique provado então - ó Rei - que todos estes cultos para muitos deuses são obras que extraviam e levam à perdição, pois não se deve chamar deuses às coisas visíveis que não vêem, mas deve-se adorar ao Deus invisível que tudo vê e criou.

O DEUS DOS JUDEUS E SEUS DEVIOS DA VERDADE

XIV. Abordemos também - ó Rei - os judeus, para ver o que estes, por sua vez, pensam a respeito de Deus. Estes, sendo descendentes de Abraão, Isaac e Jacó, viveram como forasteiros no Egito e dali Deus os retirou com mão poderosa e braço excelso por meio de Moisés, legislador deles, e por muitos prodígios e sinais lhes deu a conhecer o seu poder. Entretanto, mostrando-se também eles desconhecidos e ingratos, muitas vezes serviram aos cultos de outras nações e mataram os justos e profetas que lhes foram enviados.
Assim, quando o Filho de Deus veio sobre a terra, após o insultarem, entregaram-no a Pôncio Pilatos, governador romano, e o condenaram à morte de cruz, não respeitando os benefícios que ele lhes havia feito, nem as incontáveis maravilhas que operara entre eles; desta forma, pereceram por sua própria iniqüidade. Com efeito, continuam ainda agora a adorar o único Deus onipotente, porém não segundo o cabal conhecimento, já que negam a Cristo, Filho de Deus; são semelhantes aos gentios, embora, de certo modo, pareçam cercar-se da verdade de que, entretanto, se afastaram. Isto é o suficiente sobre os judeus...

O DEUS VIVO DOS CRISTÃOS E SEUS COMPORTAMENTOS
XV. Os cristãos, por sua parte, contam sua origem a partir do Senhor Jesus Cristo; este é professado como sendo Filho do Deus Altíssimo no Espírito Santo, descido do céu para a salvação dos homens. Foi gerado de uma virgem santa, sem gérmen nem corrupção; fez-se carne e apareceu aos homens, para afastá-los do erro da existência de muitos deuses. E, tendo cumprido sua admirável missão, sofreu a morte da cruz por desígnio voluntário, segundo uma maravilhosa economia, e, após três dias, ressuscitou e subiu aos céus. A glória de sua vinda poderás - ó Rei - conhecê-la, se lerdes o que entre eles [=os cristão] se chama Escritura Evangélica.
Este [Jesus] teve doze discípulos, os quais, após sua ascensão aos céus, percorreram as províncias do Império e ensinaram a grandeza de Cristo, de forma que um deles percorreu esta nossa região pregando a doutrina da verdade. Daí que os que servem à justiça de sua pregação são chamados "cristãos". E estes são os que tem falado a verdade em todas as nações da terra, pois conhecem o Deus criador é artífice do universo em seu Filho Unigênito e no Espírito Santo; eles não adoram outro Deus senão este.
Os mandamentos do mesmo Senhor Jesus Cristo trazem gravados em seus corações e são praticados, esperando a ressurreição dos mortos e a vida do século que há de vir. Não cometem adultério, não fornicam, não levantam falso testemunho, não cobiçam os bens alheios, honram o pai e a mãe, amam aos seus próximos e julgam com justiça.O que não querem que se lhes façam, não fazem aos outros. Aos que os ofendem, os exortam e tentam ser amigos; empenham-se em fazer o bem aos seus inimigos, são mansos e modestos. Se afastam de toda união ilegítima e de toda impureza. Não desprezam a vida, não desamparam o órfão. Os que tem compartilham abundantemente com os que não tem. Se vêem um forasteiro, o acolhem sob seu teto e se alegram com ele como um verdadeiro irmão, pois não se chamam irmãos segundo a carne, mas segundo a alma...
Estão dispostos a dar suas vidas por Cristo porque guardam com firmeza os seus mandamentos, vivendo santa e justamente segundo o que lhes ordenou o Senhor Deus. A Ele são dadas graças a todo momento, por toda comida e bebida, bem como pelos demais bens... Este é, portanto, verdadeiramente o caminho para o reino eterno, prometido por Cristo para a vida vindoura.
E, para que saibas - ó Rei - que não digo estas coisas por minha própria conta, inclina-te sobre as Escrituras dos cristãs e verificarás que não digo nada além da verdade.


CONCLUSÃO

XVI. Assim, com toda razão compreendeu o teu filho e foi ensinado a servir o Deus vivo, para salvar-se no século que está por vir. Eis que grandes e maravilhosas são as coisas pregadas e operadas pelos cristãos, pois não pregam palavras de homens, mas sim a de Deus. Pelo contrário, as demais nações erram e a si mesmas se enganam pois, andando nas trevas, se chocam uns contra os outros como bêbados.

XVII. Até aqui - ó Rei - dirigi-te este meu discurso, cuja verdade foi trazida à minha mente. Por isso, que os teus sábios insensatos parem imediatamente de falar contra o Senhor, pois convém a todos vós venerar o Deus Criador e oferecer tudo às suas palavras incorruptíveis a fim de que, escapando do juízo e dos castigos, sejais declarados herdeiros da vida imperecível.

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terça-feira, 2 de maio de 2017

12
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Aristides de Atenas (+130)
Apologia de Aristides (Cap VIII ao XII)



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OS FALSOS DEUSES DOS GREGOS
VIII. Vejamos agora também os gregos, para ver se possuem alguma idéia sobre Deus. Os gregos, que dizem ser sábios, mostram-se mais ignorantes que os caldeus, introduziram uma multidão de deuses que nasceram uns do sexo masculino, outros do sexo feminino, escravos de todas as paixões e sujeitos de toda espécie de iniqüidades; são deuses que eles mesmos afirmam ter sido adúlteros, assassinos, irados, invejosos, rancorosos, parricidas e fratricidas, ladrões e assaltantes, coxos e importunos, feiticeiros e loucos. Destes, uns morreram, outros foram fulminados, outros serviram aos homens como escravos, outros viraram fugitivos, outros sentiram dor e lamentaram, outros se transformaram em animais...
Daí se vê - ó Rei - quão ridículas, absurdas e ímpias palavras introduziram os gregos ao dar o nome de deuses a esses seres que não são [deuses]; assim fizeram seguindo os seus maus desejos, a fim de que, tendo aqueles abrogado suas maldades, pudessem estes [também] entregar-se ao adultérios, ao roubo, ao assassinato e toda a classe de vícios. Ora, se tudo isso fizeram os deuses, por que também não poderiam fazer os homens que lhes prestam culto? Consequência, pois, de todas estas obras do erro foi que os homens sofreram guerras contínuas, matanças e cativeiros amargos.
IX. Mas se quisermos recorrer com nosso discurso a cada um de seus deuses, veremos absurdos sem conta. Assim, introduzem, antes de mais nada, um deus chamado Cronos e a estes lhe sacrificam seus próprios filhos; Cronos teve muitos filhos de Rea e, finalmente, tornando-se louco, comeu os seus próprios filhos. Dizem também que Zeus lhe cortou as partes viris e as atirou no mar, donde se conta que nasceu Afrodite. Amarrando Zeus o próprio pai, lançou-o no Tártaro.
Vês o desvio e a imprudência introduzidos contra o seu próprio deus? Como é possível que um deus seja amarrado ou mutilado? Ó insensatez! Quem, em seu são juízo, pode dizer tais coisas?
Depois introduziram Zeus, que dizem ser o rei de todos os seus deuses e que toma a forma de animais para unir-se com mulheres mortais. Com efeito, contam que se transformou em touro para Europa e Pasfae, em ouro para Danae, em cisne para Leda, em sátiro para Antíope e em raio para Esmele; e que destas nasceram-lhe muitos filhos: Dionísio, Zeto, Anfim, Héracles, Apolo e Artemisa, Perseu, Castor, Helena e Plux, Minos, Radamante, Sarpenden e as sete filhas chamadas "musas". Logo introduziram igualmente a fábula de Ganímedes... Aconteceu então - ó Rei - que os homens imitaram tudo isto e se fizeram adúlteros e pervertidos, como seu deus, e cometeram toda a classe de atos viciosos. Como é possível conceber que Deus seja adúltero, pervertido e parricida?
X. Com isto, introduziram um certo Hefesto como deus, e este, coxo e empunhando martelo e torquês, passou a ser ferreiro para ganhar a vida. É necessitado? Isto é coisa inadmissível para Deus: ser coxo e necessitado dos homens.
Logo introduziram Hermes como deus; ele que é ambicioso, ladrão, avaro, feiticeiro, estropiado e intérprete de discursos... Não se concebe que Deus possa ser tais coisas.
Também introduziram Asclépio como deus; médico de profissão e dedicado a preparar medicamentos, compondo emplastos para se sustentar (pois estava necessitado), logo foi fulminado por Zeus por causa do filho do lacedemônio Tindreo, e assim morreu. Mas se Asclépio, sendo deus, não pôde ajudar a si mesmo, sendo fulminado, como poderá ajudar os outros?
Também introduziram Ares como deus; guerreiro, invejoso, ambicioso por rebanhos e outras coisa, dizem que ele, mais tarde, cometeu adultério com Afridite, e foi amarrado pelo menino Eros e também por Hefesto. Como, pois, poderia Deus ser ambicioso, guerreiro, adúltero e prisioneiro?
Também introduziram Donísio como deus, ele que celebra festas noturnas, é mestre em embriaguez e arrebata as mulheres alheias; mais tarde, foi degolado pelos titãs. Se, pois, Dionísio foi degolado, não pôde ajudar-se a si mesmo, mas era louco, bêbado e fugitivo; como poderia ser Deus?
Também introduziram Héracles, que contam ter-se embriagado e, tornando-se louco, comeu seus próprios filhos, sendo após consumido pelo fogo, assim morrendo. Mas como pode Deus ser bêbado, matar seus filhos e ser devorado pelo fogo? Como pode socorrer os outros se não pôde socorrer a si mesmo?
XI. Também introduziram Apolo como deus; ele era invejoso; às vezes empunhava o arco e a flecha, outras vezes a cítara e a flauta; dedicava-se à adivinhação em troca do dinheiro dos homens. Ele é necessitado? É impossível admitir que Deus esteja necessitado e seja invejoso, como citamos.
Depois introduziram Artemisa, sua irmã, caçadora por ofício, que carrega o arco e a flecha, andando errante pelos montes, acompanhada somente de seus cães, para caçar cervos e javalis. Como pode, pois, ser deusa uma mulher que é caçadora e anda errante com seus cães?
Também dizem que Afrodite é deusa, que foi adúltera e que como companheiros de adultério Ares, Anquises e Adônis (cuja morte chorou), e sempre buscava amantes; até dizem que desceu ao Hades para resgatar Adônis de Persfone, filha de Hades. Ó Rei: por acaso já viste insensatez maior que a de introduzir uma deusa adúltera, que lamenta e chora?
Também introduziram Adônis como deus, caçador de ofício e adúltero, que morreu violentamente ferido por um javali e não pôde ajudar-se em sua desgraça. Como pode então preocupar-se com os homens aquele que era adúltero, caçador e que morreu de forma violenta?
Tudo isto e muitas coisas mais, bem vergonhosas e piores, introduziram os gregos - ó Rei - fantasiando sobre seus deuses coisas que absolutamente não são lícitas de dizê-las ou trazê-las à memória. Assim, tomando os homens os exemplos de seus próprios deuses, praticaram todo gênero de iniqüidade, imprudência e impiedade, manchando a terra e o ar com suas terríveis ações.

OS FALSOS DEUSES DOS EGÍPCIOS

XII. Quanto aos egípcios, que são mais torpes e mais néscios que os gregos, erraram mais que todas as nações, pois não se contentaram com os cultos dos caldeus e dos gregos, mas introduziram ainda como deuses animais irracionais, tanto da terra como da água, bem como árvores e plantas, e mergulharam em toda a loucura e imprudência pior que todas as nações existentes sobre a terra.
Eis que a princípio prestaram culto a Ísis, que tinha Osíris por irmão e marido; este foi degolado por seu irmão Tifão. Por esta razão, Ísis fugiu com seu filho Hórus para Bíblo, na Síria, chorando amargamente; quando Hórus cresceu, matou Tifão. Desta forma, nem Ísis teve forças para ajudar seu irmão e marido, nem Osíris pôde ajudar-se a si mesmo (já que foi degolado por Tifão), da mesma maneira que Tifão, fratricida, morto por Hórus e Ísis, não conseguiu livrar-se a si próprio da morte. E, reconhecidos por tais desgraças, foram tidos por deuses pelos insensatos egípcios, os quais, não contentes com este e com os demais cultos trazidos por outras nações, introduziram como deuses até mesmo os animais irracionais.
Eis que alguns deles adoram a ovelha; outros o cabrito; outros o novilho e o porco; outros o corvo, o gavião, o abutre e a águia; outros o crocodilo; outros o gato, o cão e o lobo, e também o macaco, a serpente e a áspide; outros a cebola e o alho, os espinhos e as demais criaturas... E os desgraçados não se dão conta que nenhuma dessas coisas possui poder algum, nem vendo que seus deuses são comidos por outros homens, queimados e degolados, e se putrefazem... Não compreendem que não são deuses!

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