terça-feira, 2 de maio de 2017

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Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Aristides de Atenas (+130)
Apologia de Aristides (Cap VIII ao XII)



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OS FALSOS DEUSES DOS GREGOS
VIII. Vejamos agora também os gregos, para ver se possuem alguma idéia sobre Deus. Os gregos, que dizem ser sábios, mostram-se mais ignorantes que os caldeus, introduziram uma multidão de deuses que nasceram uns do sexo masculino, outros do sexo feminino, escravos de todas as paixões e sujeitos de toda espécie de iniqüidades; são deuses que eles mesmos afirmam ter sido adúlteros, assassinos, irados, invejosos, rancorosos, parricidas e fratricidas, ladrões e assaltantes, coxos e importunos, feiticeiros e loucos. Destes, uns morreram, outros foram fulminados, outros serviram aos homens como escravos, outros viraram fugitivos, outros sentiram dor e lamentaram, outros se transformaram em animais...
Daí se vê - ó Rei - quão ridículas, absurdas e ímpias palavras introduziram os gregos ao dar o nome de deuses a esses seres que não são [deuses]; assim fizeram seguindo os seus maus desejos, a fim de que, tendo aqueles abrogado suas maldades, pudessem estes [também] entregar-se ao adultérios, ao roubo, ao assassinato e toda a classe de vícios. Ora, se tudo isso fizeram os deuses, por que também não poderiam fazer os homens que lhes prestam culto? Consequência, pois, de todas estas obras do erro foi que os homens sofreram guerras contínuas, matanças e cativeiros amargos.
IX. Mas se quisermos recorrer com nosso discurso a cada um de seus deuses, veremos absurdos sem conta. Assim, introduzem, antes de mais nada, um deus chamado Cronos e a estes lhe sacrificam seus próprios filhos; Cronos teve muitos filhos de Rea e, finalmente, tornando-se louco, comeu os seus próprios filhos. Dizem também que Zeus lhe cortou as partes viris e as atirou no mar, donde se conta que nasceu Afrodite. Amarrando Zeus o próprio pai, lançou-o no Tártaro.
Vês o desvio e a imprudência introduzidos contra o seu próprio deus? Como é possível que um deus seja amarrado ou mutilado? Ó insensatez! Quem, em seu são juízo, pode dizer tais coisas?
Depois introduziram Zeus, que dizem ser o rei de todos os seus deuses e que toma a forma de animais para unir-se com mulheres mortais. Com efeito, contam que se transformou em touro para Europa e Pasfae, em ouro para Danae, em cisne para Leda, em sátiro para Antíope e em raio para Esmele; e que destas nasceram-lhe muitos filhos: Dionísio, Zeto, Anfim, Héracles, Apolo e Artemisa, Perseu, Castor, Helena e Plux, Minos, Radamante, Sarpenden e as sete filhas chamadas "musas". Logo introduziram igualmente a fábula de Ganímedes... Aconteceu então - ó Rei - que os homens imitaram tudo isto e se fizeram adúlteros e pervertidos, como seu deus, e cometeram toda a classe de atos viciosos. Como é possível conceber que Deus seja adúltero, pervertido e parricida?
X. Com isto, introduziram um certo Hefesto como deus, e este, coxo e empunhando martelo e torquês, passou a ser ferreiro para ganhar a vida. É necessitado? Isto é coisa inadmissível para Deus: ser coxo e necessitado dos homens.
Logo introduziram Hermes como deus; ele que é ambicioso, ladrão, avaro, feiticeiro, estropiado e intérprete de discursos... Não se concebe que Deus possa ser tais coisas.
Também introduziram Asclépio como deus; médico de profissão e dedicado a preparar medicamentos, compondo emplastos para se sustentar (pois estava necessitado), logo foi fulminado por Zeus por causa do filho do lacedemônio Tindreo, e assim morreu. Mas se Asclépio, sendo deus, não pôde ajudar a si mesmo, sendo fulminado, como poderá ajudar os outros?
Também introduziram Ares como deus; guerreiro, invejoso, ambicioso por rebanhos e outras coisa, dizem que ele, mais tarde, cometeu adultério com Afridite, e foi amarrado pelo menino Eros e também por Hefesto. Como, pois, poderia Deus ser ambicioso, guerreiro, adúltero e prisioneiro?
Também introduziram Donísio como deus, ele que celebra festas noturnas, é mestre em embriaguez e arrebata as mulheres alheias; mais tarde, foi degolado pelos titãs. Se, pois, Dionísio foi degolado, não pôde ajudar-se a si mesmo, mas era louco, bêbado e fugitivo; como poderia ser Deus?
Também introduziram Héracles, que contam ter-se embriagado e, tornando-se louco, comeu seus próprios filhos, sendo após consumido pelo fogo, assim morrendo. Mas como pode Deus ser bêbado, matar seus filhos e ser devorado pelo fogo? Como pode socorrer os outros se não pôde socorrer a si mesmo?
XI. Também introduziram Apolo como deus; ele era invejoso; às vezes empunhava o arco e a flecha, outras vezes a cítara e a flauta; dedicava-se à adivinhação em troca do dinheiro dos homens. Ele é necessitado? É impossível admitir que Deus esteja necessitado e seja invejoso, como citamos.
Depois introduziram Artemisa, sua irmã, caçadora por ofício, que carrega o arco e a flecha, andando errante pelos montes, acompanhada somente de seus cães, para caçar cervos e javalis. Como pode, pois, ser deusa uma mulher que é caçadora e anda errante com seus cães?
Também dizem que Afrodite é deusa, que foi adúltera e que como companheiros de adultério Ares, Anquises e Adônis (cuja morte chorou), e sempre buscava amantes; até dizem que desceu ao Hades para resgatar Adônis de Persfone, filha de Hades. Ó Rei: por acaso já viste insensatez maior que a de introduzir uma deusa adúltera, que lamenta e chora?
Também introduziram Adônis como deus, caçador de ofício e adúltero, que morreu violentamente ferido por um javali e não pôde ajudar-se em sua desgraça. Como pode então preocupar-se com os homens aquele que era adúltero, caçador e que morreu de forma violenta?
Tudo isto e muitas coisas mais, bem vergonhosas e piores, introduziram os gregos - ó Rei - fantasiando sobre seus deuses coisas que absolutamente não são lícitas de dizê-las ou trazê-las à memória. Assim, tomando os homens os exemplos de seus próprios deuses, praticaram todo gênero de iniqüidade, imprudência e impiedade, manchando a terra e o ar com suas terríveis ações.

OS FALSOS DEUSES DOS EGÍPCIOS

XII. Quanto aos egípcios, que são mais torpes e mais néscios que os gregos, erraram mais que todas as nações, pois não se contentaram com os cultos dos caldeus e dos gregos, mas introduziram ainda como deuses animais irracionais, tanto da terra como da água, bem como árvores e plantas, e mergulharam em toda a loucura e imprudência pior que todas as nações existentes sobre a terra.
Eis que a princípio prestaram culto a Ísis, que tinha Osíris por irmão e marido; este foi degolado por seu irmão Tifão. Por esta razão, Ísis fugiu com seu filho Hórus para Bíblo, na Síria, chorando amargamente; quando Hórus cresceu, matou Tifão. Desta forma, nem Ísis teve forças para ajudar seu irmão e marido, nem Osíris pôde ajudar-se a si mesmo (já que foi degolado por Tifão), da mesma maneira que Tifão, fratricida, morto por Hórus e Ísis, não conseguiu livrar-se a si próprio da morte. E, reconhecidos por tais desgraças, foram tidos por deuses pelos insensatos egípcios, os quais, não contentes com este e com os demais cultos trazidos por outras nações, introduziram como deuses até mesmo os animais irracionais.
Eis que alguns deles adoram a ovelha; outros o cabrito; outros o novilho e o porco; outros o corvo, o gavião, o abutre e a águia; outros o crocodilo; outros o gato, o cão e o lobo, e também o macaco, a serpente e a áspide; outros a cebola e o alho, os espinhos e as demais criaturas... E os desgraçados não se dão conta que nenhuma dessas coisas possui poder algum, nem vendo que seus deuses são comidos por outros homens, queimados e degolados, e se putrefazem... Não compreendem que não são deuses!

Pergunta ao Grupo:
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domingo, 30 de abril de 2017

Reunião da OFSE - 28 de abril de 2017

No dia 29 de abril de 2017 a OFSE esteve reunida na Casa do Irmão Gleisto em Inhaúma, Rio de Janeiro. Foi uma reunião agradável onde estudamos o livro de Tomás de Celano sobre a vida de São Francisco de Assis. Estudamos os capítulos 20 ao 25, veja as fotos:

Joana, Gleisto, Marisa, Edson, Elonede e Edmar.
Elonede segura uma cópia da pintura de Giotto sobre o capítulo 21 de I Celano: A pregação aos Pássaros.

Pintura de Giotto (1266-1337) - A pregação aos Pássaros baseado no texto Tomás de Celano - Via I, cap 21.

CAPÍTULO 21. Pregação aos pássaros e obediência das criaturas

Enquanto, como dissemos, eram muitos os que se juntavam aos irmãos, o santo pai Francisco percorria o vale de Espoleto. Chegando perto de Bevagna, encontrou uma multidão enorme de pássaros de todas as espécies, como pombas, gralhas e outras que vulgarmente chamam de corvos. Quando os viu, o servo de Deus Francisco, que era homem de grande fervor e tinha um afeto muito grande mesmo pelas criaturas inferiores e irracionais, correu alegremente para eles, deixando os companheiros no caminho. Aproximou-se e vendo que o esperavam sem medo, cumprimentou-os como era seu costume. Mas ficou muito admirado porque as aves não fugiram como fazem sempre e, cheio de alegria, pediu humildemente que ouvissem a palavra de Deus. Entre muitas outras coisas, disse-lhes o seguinte: Passarinhos, meus irmãos, vocês devem sempre louvar o seu Criador e ama-lo, porque lhes deu penas para vestir, asas para voar e tudo que vocês precisam. Deus lhes deu um bom lugar entre as suas criaturas e lhes permitiu morar na limpidez do ar, pois embora vocês não semeiem nem colham, não precisam se preocupar porque Ele protege e guarda vocês". Quando os passarinhos ouviram isso, conforme ele mesmo e seus companheiros contaram depois, fizeram uma festa à sua maneira, começando a espichar o pescoço, a abrir as asas e a olhar para ele. Ele ia e voltava pelo meio deles roçando a túnica por suas cabeças e corpos. Depois abençoou-os e, fazendo o sinal da cruz, deu-lhes licença para voar. Com os companheiros, o bem-aventurado pai continuou alegre pelo seu caminho, dando graças a Deus, a quem todas as criaturas louvam com humilde reconhecimento.



Pastor Edmar ministrando a Eucaristia e a oração das Vésperas

Logo após a confraternização com uma deliciosa refeição

Edson, Gleisto e Edmar.


quarta-feira, 26 de abril de 2017

Estudo da Fraternidade Franciscana - OFSE

Biografia de Francisco de Assis
Tomás de Celano
1Celano  - Capítulos 20 a 25.

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CAPÍTULO 20. Seu desejo de martírio leva-o à Espanha e depois à Síria. Por sua intercessão, Deus livra os marinheiros do perigo, multiplicando a comida

Ardendo em amor de Deus, o santo pai Francisco sempre quis empreender as coisas mais difíceis, e percorrendo o caminho dos mandamentos do Senhor com o coração aberto, queria atingir o cume da perfeição.
No sexto ano de sua conversão, inflamado em veemente anseio do santo martírio, quis navegar para a Síria, para pregar a fé cristã e a penitência aos sarracenos e outros infiéis. Tomou um navio que ia para lá, mas sopravam ventos contrários e foi parar com os outros navegantes na Esclavônia. Vendo-se frustrado em tão vivo desejo, pediu pouco tempo depois a uns marinheiros que iam para Ancona que o levassem, porque naquele ano quase nenhum navio pôde ir para a Síria. Como eles se recusassem firmemente a levá-lo, porque não podia pagar, o santo confiou muito na vontade do Senhor e entrou escondido no navio com o seu companheiro. Por providência divina, uma pessoa que ninguém conhecia chegou trazendo provisões, chamou um homem temente a Deus que ia no navio e lhe disse: "Leva contigo tudo isto e, quando for necessário, deverás dá-las fielmente aos pobres que estão escondidos nesse navio". E assim aconteceu que, levantando-se uma tempestade enorme, passaram dias lutando com os remos e consumiram todas as provisões, sobrando apenas a comida do pobre Francisco.
Mas, pela graça e o poder de Deus, essa comida se multiplicou de tal modo que, embora tenham passado muitos outros dias a navegar, foi suficiente para satisfazer bem a necessidade de todos, até chegarem ao porto de Ancona. Quando os marinheiros perceberam que tinham escapado dos perigos do mar por intermédio do servo de Deus São Francisco, deram graças ao Senhor todo-poderoso, que em seus servidores sempre se mostra bondoso e admirável.
Deixando o mar, Francisco, servo de Deus altíssimo, caminhou pela terra e, abrindo-a com o arado da palavra, semeou a semente da vida, produzindo um fruto abençoado. Bem depressa muitos homens de valor, clérigos e leigos, fugindo do mundo e escapando valorosamente ao demônio, por graça e vontade do Altíssimo, seguiram sua vida e seu caminho.

Todavia, embora produzissem frutos abundantes e saborosos, como a palmeira do Evangelho, não bastaram para esfriar a sua decisão sublime do martírio ardentemente desejado. Pois algum tempo depois empreendeu uma viagem ao Marrocos, para pregar o Evangelho de Cristo ao Miramolim e a seus sequazes. Seu entusiasmo era tanto que, às vezes, deixava para trás seu companheiro de viagem, na pressa de realizar seu intento com verdadeira embriaguez espiritual.
Mas o bom Deus lembrou-se em sua misericórdia de mim e de muitos outros, e se opôs frontalmente a ele quando já tinha chegado à Espanha, impedindo-o de continuar o caminho por uma doença que o fez voltar atrás.
Não fazia muito tempo que tinha voltado a Santa Maria da Porciúncula, quando alguns homens de letras e alguns nobres juntaram-se a ele com grande satisfação. A estes, sempre educado e discreto, tratou com respeito e dignidade, servindo piedosamente a cada um conforme lhe cabia. Dotado de especial discrição, sabia respeitar, em todos, os graus do seu valor.
Mas ainda não podia ficar sossegado, deixando de seguir com fervor o seu sagrado impulso. No décimo terceiro ano de sua conversão, foi para a Síria e, embora recrudescessem cada dia terríveis e duros combates entre cristãos e pagãos, não teve medo de se apresentar ao sultão dos sarracenos, levando um companheiro.
Quem vai poder contar a coragem com que se manteve diante dele, a fortaleza com que falou, a eloquência e a confiança com que respondeu aos que insultavam a lei cristã? Preso pelos guardas antes de chegar ao sultão, não se assustou nem quando foi ofendido e açoitado, não recuou diante de suplícios e não ficou com medo nem da ameaça de morte. Foi maltratado por muitos que eram hostis e adversos, mas o sultão o recebeu muito bem. Reverenciou-o quanto lhe foi possível e lhe ofereceu muitos presentes, tentando convertê-lo para o espírito mundano. Mas, quando viu que ele desprezava valentemente todas as coisas como se não passassem de esterco, ficou admiradíssimo e olhava para ele como um homem diferente.
Ficou muito comovido com suas palavras e o ouviu de muito boa vontade. Apesar de tudo isso, o Senhor não satisfez o seu desejo, pois lhe estava reservando o privilégio de uma graça especial.



CAPÍTULO 21. Pregação aos pássaros e obediência das criaturas
Enquanto, como dissemos, eram muitos os que se juntavam aos irmãos, o santo pai Francisco percorria o vale de Espoleto.
Chegando perto de Bevagna, encontrou uma multidão enorme de pássaros de todas as espécies, como pombas, gralhas e outras que vulgarmente chamam de corvos. Quando os viu, o servo de Deus Francisco, que era homem de grande fervor e tinha um afeto muito grande mesmo pelas criaturas inferiores e irracionais, correu alegremente para eles, deixando os companheiros no caminho.
Aproximou-se e vendo que o esperavam sem medo, cumprimentou-os como era seu costume. Mas ficou muito admirado porque as aves não fugiram como fazem sempre e, cheio de alegria, pediu humildemente que ouvissem a palavra de Deus.
Entre muitas outras coisas, disse-lhes o seguinte: Passarinhos, meus irmãos, vocês devem sempre louvar o seu Criador e ama-lo, porque lhes deu penas para vestir, asas para voar e tudo que vocês precisam. Deus lhes deu um bom lugar entre as suas criaturas e lhes permitiu morar na limpidez do ar, pois embora vocês não semeiem nem colham, não precisam se preocupar porque Ele protege e guarda vocês".
Quando os passarinhos ouviram isso, conforme ele mesmo e seus companheiros contaram depois, fizeram uma festa à sua maneira, começando a espichar o pescoço, a abrir as asas e a olhar para ele. Ele ia e voltava pelo meio deles roçando a túnica por suas cabeças e corpos. Depois abençoou-os e, fazendo o sinal da cruz, deu-lhes licença para voar. Com os companheiros, o bem-aventurado pai continuou alegre pelo seu caminho, dando graças a Deus, a quem todas as criaturas louvam com humilde reconhecimento.
Como já era um homem simples não pela natureza mas pela graça, começou a acusar-se de negligente por não ter pregado antes para as aves, que tinham ouvido a palavra de Deus com tanto respeito.
Daí para frente, passou a exortar com solicitude todos os pássaros, animais, répteis e até as criaturas inanimadas a louvarem e amarem o Criador, já que, por experiência própria, comprovava todos os dias como obedeciam quando invocava o nome do Salvador.
Uma vez, chegando ao povoado de Alviano para pregar a palavra de Deus, subiu a um lugar mais alto para poder ser visto por todos e começou a pedir silêncio. Estando todos calados e esperando com respeito, uma porção de andorinhas, que tinham ninho naquele lugar, faziam uma algazarra e muito ruído.
Como não podia ser ouvido pelas pessoas, São Francisco dirigiu-se aos passarinhos dizendo: "Minhas irmãs andorinhas, já está na hora de eu lhes falar também, porque até agora vocês já disseram o suficiente. Ouçam a palavra de Deus e fiquem quietas e caladas até o fim do sermão do Senhor".
Para grande espanto e admiração de todos os presentes, os passarinhos logo se aquietaram e não saíram de seus lugares até que a pregação acabou.
Vendo esse sinal, todos diziam, maravilhados: "Na verdade, este homem é um santo e amigo do Altíssimo". E corriam com toda a devoção para pelo menos tocar sua roupa, louvando e bendizendo a Deus. De fato, era para admirar que até as criaturas irracionais fossem capazes de reconhecer o seu afeto para com elas e de pressentir o seu carinho.
Numa ocasião em que estava morando no povoado de Greccio, um irmão foi levar-lhe um filhote de lebre que caíra vivo numa armadilha. O santo ficou comovido quando o viu e disse: "Irmã lebre, vem cá. Como é que isso foi acontecer?" O irmão que a segurava soltou-a e ela correu para o santo, encontrando nele o lugar mais seguro, sem que ninguém a obrigasse, e descansou em seu regaço. Depois que tinha descansado um pouquinho, o santo pai, acariciando-a maternalmente, soltou-a para que voltasse livre para o mato. Mas, todas as vezes que era posta no chão, ela voltava para as mãos do santo, até que este mandou que os irmãos a levassem para o bosque ali perto.
Coisa parecida aconteceu com um coelho, animal muito pouco doméstico, na ilha do lago de Perusa.
Tinha a mesma afeição para com os peixes e, nas oportunidades que teve, devolveu-os à água, aconselhando-os a tomarem cuidado para não serem pescados outra vez. Numa ocasião em que estava numa barca junto ao porto do lago de Rieti, um pescador pegou um peixe muito grande, desses que chamam de tenca, e lhe deu de presente com devoção. O santo recebeu-o com alegria e bondade, começou a chamá-lo de irmão e, colocando-o na água fora da barca, pôs-se a abençoar devotamente o nome do Senhor.
Enquanto o santo orava, o peixe ficou brincando na água, sem se afastar do lugar em que tinha sido posto, até que, no fim da oração, o santo lhe deu licença para ir embora.
Foi assim que o glorioso pai São Francisco, andando pelo caminho da obediência e escolhendo com perfeição o jugo da submissão a Deus, recebeu diante do Senhor a grande dignidade de ser obedecido pelas suas criaturas.
Uma vez até a sua água foi mudada em vinho, quando esteve muito doente na ermida de Santo Urbano. Quando o provou, sarou com tanta facilidade que todos acreditaram que era um milagre, como foi de verdade. Só pode ser santa uma pessoa a quem as criaturas obedecem e à cuja vontade até os outros elementos se transformam.



CAPÍTULO 22. Pregação de São Francisco em Ascoli. Doentes curados por objetos tocados por ele

No tempo em que contamos que pregou aos pássaros, andava o santo Pai pelas cidades e povoados e, espalhando as sementes de bênção por toda parte, chegou à cidade de Ascoli. Pregou aí com todo o fervor, como costumava e, pela mão de Deus, o povo quase todo ficou tão cheio de graça e devoção para ouví-lo e vê-lo que se atropelavam uns aos outros.
Nessa ocasião, trinta homens, clérigos e leigos, receberam de sua mão o hábito da Ordem.
Tanta era a fé dos homens e das mulheres, e tão grande a devoção pelo santo de Deus, que se tinha por feliz quem conseguia pelo menos tocar-lhe a roupa. Quando entrava em alguma cidade, alegrava-se o clero, os sinos tocavam, exultavam os homens, festejavam as mulheres, as crianças batiam palmas e, muitas vezes, cortando ramos das árvores, iam cantando ao seu encontro.
Cobria-se de confusão a perversa heresia, triunfava a fé da Igreja e, enquanto os fiéis rejubilavam, os hereges se escondiam. Pois nele se viam tantos sinais de santidade que ninguém ousava contradizê-lo, porque a multidão só olhava para ele. Ele mesmo insistia acima de tudo na conservação, respeito e prática da doutrina da santa Igreja Romana, na qual somente está a salvação para todos.
Venerava os sacerdotes e reverenciava com profundo afeto toda a hierarquia eclesiástica.
O povo trazia-lhe pães para benzer e os guardava por muito tempo, porque conseguia a cura de diversas doenças só de prová-los.
Também era muito frequente que, afoitos numa fé exagerada, cortassem a sua túnica, deixando-o às vezes quase sem roupa. E o que é mais de se admirar: se o santo pai tocava alguma coisa, a saúde era devolvida a muitas pessoas através dela.
Uma mulher de um povoado perto de Arezzo estava grávida. Quando chegou o tempo do parto, passou vários dias entre a vida e a morte, com dores incríveis. Seus vizinhos e conhecidos souberam que São Francisco ia passar por ali para ir a uma ermida. Ficaram à sua espera, mas aconteceu que o santo foi para o referido lugar por outro caminho, pois estava muito fraco e doente e teve que ir a cavalo. Mas, ao chegar, mandou um certo Frei Pedro devolver o cavalo ao homem que o emprestara por caridade.
Frei Pedro, de volta com o animal, passou pelo caminho em que a mulher estava padecendo. Vendo-o aproximar-se, correram para ele os homens do lugar, pensando que fosse São Francisco. Quando viram que não era, ficaram muito tristes. Finalmente começaram a perguntar um ao outro se poderiam encontrar alguma coisa em que São Francisco tivesse tocado. Demoraram muito tempo procurando e acabaram encontrando as rédeas que ele tinha segurado para cavalgar.
Tiraram o freio da boca do cavalo em que o santo pai tinha montado, puseram em cima da mulher as rédeas que ele tinha apertado em suas mãos. Imediatamente, livre de perigo, ela deu à luz com toda alegria e felicidade.

Gualfredúcio, um homem religioso, que temia e venerava a Deus
com toda a sua família, e morava em Città della Pieve, tinha consigo uma corda que São Francisco já tinha usado em sua cintura.
Acontecia que, naquela cidade, muitos homens e não poucas mulheres sofriam de várias doenças e febres. Ele ia à casa de cada um dos doentes, dava-lhes de beber água em que tinha mergulhado a corda ou alguns fiapos e assim, no nome do Senhor, todos conseguiam a saúde.
Coisas desse tipo, e muitas outras, que não poderíamos contar mesmo alongando demais a narração, eram feitas na ausência de São Francisco.
Vamos referir brevemente nesta obra alguns milagres que o Senhor nosso Deus se dignou operar em sua
presença.

CAPÍTULO 23. Cura de um coxo em Toscanela e de um paralítico em Narni

Percorrendo vastas regiões para anunciar o reino de Deus, chegou São Francisco a uma cidade chamada Toscanela. Enquanto aí espalhava a semente da vida, conforme o seu costume, foi hospedado por um cavaleiro que tinha um filho único, coxo e tão fraco que, embora ainda criança, já tinha passado da idade de mamar mas ainda ficava no berço.
O pai, vendo o homem de Deus tão rico em santidade, lançou-se a seus pés com humildade, pedindo a saúde do filho. Julgando-se indigno e incapaz de obter uma graça tão grande, o santo se recusou por muito tempo. Por fim, vencido pela constância dos pedidos, recolheu-se em oração, impôs a mão sobre o menino, abençoou-o e o levantou. Imediatamente, para alegria de todos os que estavam presentes, a criança ficou em pé, curada no nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, e começou a andar por todos os cantos da casa.
Numa ocasião em que o homem de Deus, Francisco, esteve em Narni e ali passou alguns dias, um homem da cidade, chamado Pedro, estava de cama, paralítico. Tinha estado assim durante cinco meses, sem poder usar membro nenhum, sem poder levantar-se e nem mesmo se mover. Tendo perdido todo uso dos pés, das mãos e da cabeça, só conseguia mexer a língua e abrir os olhos. Mas, sabendo que São Francisco estava em Narni, mandou recado ao bispo da cidade pedindo que por amor de Deus mandasse o servo do Altíssimo, convencido de só a vista e a presença do santo bastariam para libertá-lo da doença que o prendia. Foi o que aconteceu. Quando São Francisco chegou e lhe fez um sinal da cruz da cabeça aos pés, a doença desapareceu instantaneamente e ele recobrou a saúde perdida.

CAPÍTULO 24. Restitui a vista a uma cega. Cura as mãos encolhidas de uma mulher em Gúbio

Uma mulher cega da mesma cidade mereceu receber a cura desejada logo que São Francisco lhe fez o sinal da cruz sobre os olhos.
Em Gúbio, havia uma mulher que tinha as duas mãos contraídas, sem poder fazer nada com elas. Quando soube que São Francisco estava na cidade, correu para ele e, com o rosto aflito e cheio de tristeza, mostrando as mãos contraídas, começou a pedir que se dignasse tocá-las. Com pena, ele lhe tocou e curou as mãos. Na mesma hora, voltou toda alegre para casa, fez uma fogaça de queijo com as próprias mãos e a deu de presente ao santo. Bondoso, ele aceitou um pedaço e mandou que a mulher comesse o resto com a família.

CAPÍTULO 25. Livra um irmão de uma doença epilética, isto é, de um demônio, e uma possessa em San Gemini

Um irmão padecia frequentemente de uma doença muito grave e horrível de se ver, cujo nome não sei e que alguns atribuíam ao demônio. Muitas vezes se debatia todo e ficava com um aspecto miserável, revirando-se e espumando. Seus membros se contraíam e se estendiam, dobravam-se entortados ou ficavam rijos e duros. Às vezes ficava estendido e rígido, juntava os pés e a cabeça, elevava-se no alto até a altura de um homem e de repente caía por terra. Com pena de seu grande sofrimento, São Francisco foi visitá-lo, orou, fez o sinal da cruz sobre ele e o abençoou. Ficou imediatamente curado e nunca mais teve os sintomas dessa doença.
Passando um dia o santo pai Francisco pela diocese de Narni, chegou a um povoado chamado San Gemini. Anunciando aí a palavra de Deus, foi hospedado com outros três frades por um homem que temia e venerava a Deus e tinha muito boa fama naquela terra. Sua mulher era perturbada por um demônio, como era do conhecimento de todos na cidade.
O marido pediu a São Francisco por ela, confiando que por seus méritos ela poderia ser libertada.
Mas o santo se recusou absolutamente a fazer isso, porque em sua simplicidade preferia o desprezo em lugar dos favores do mundo pela demonstração de santidade. Afinal, porque era para a glória de Deus e muitos estavam pedindo, rendeu-se às súplicas. Chamou os três irmãos que estavam com ele e colocou um em cada ângulo da casa, dizendo-lhes: "Irmãos, oremos ao Senhor por esta mulher, para que Deus a liberte do jugo do demônio, para sua glória e seu louvor. Vamos ficar nos ângulos da casa para que este espírito maligno não nos possa fugir ou enganar, procurando esconderijo nos cantos".
Quando acabou a oração, São  Francisco aproximou-se da mulher cheio da virtude do Espírito. Ela se revolvia em convulsões e gritava horrorosamente. Disse o santo: "Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, mando-te por obediência, ó demônio, que saias dela e jamais te atrevas a molestá-la". Logo que acabou de falar, o demônio saiu tão rápido e com tanto furor e barulho que, pela súbita cura da mulher e pela obediência tão pronta do demônio, o santo pai pensou que tivesse sido enganado. Saiu envergonhado daquele lugar, por disposição da divina providência, para que não pudesse vangloriar-se se de alguma coisa.
Numa outra vez que o santo passou pelo mesmo local, Frei Elias estava com ele. Quando aquela mulher soube de sua vinda, saiu imediatamente a correr pela praça, pedindo aos gritos que se dignasse falar com ela. Ele não queria falar, pois sabia que era a mulher de quem tinha expulsado um demônio pela virtude de Deus.
Mas ela beijava os rastros de seus pés, dando graças a Deus e a São Francisco seu servo, que a tinha libertado da mão da morte.
Finalmente, Frei Elias forçou o santo com seu pedido. Falou com ela e foi certificado por muitos, tanto da doença, como já dissemos, como da cura.

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terça-feira, 18 de abril de 2017

11 - Aristides de Atenas (+130) - Apologia de Aristides – (Cap I ao VII)

11
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Aristides de Atenas (+130)
Apologia de Aristides – (Cap I ao VII)

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Aristides de Atenas (ou Aristides, o ateniense, Santo Aristides ou Marcianus Aristides) foi um autor cristão grego do século II dC que é primordialmente conhecido por sua obra Apologia de Aristides.

Vida e obra
São muito escassos os dados disponíveis acerca de Aristides: é sabido que escreveu, enquanto vivia em Atenas no fim do segundo século II, uma apologia dirigida ao Imperador Adriano ou, talvez, ao seu sucessor, Antonino Pio (138-161).
Segundo a História Eclesiástica de Eusébio, o Imperador Adriano ter-se-ia convertido a uma religião mistérica quando da sua estadia na Grécia (123-127) e, na sequência de uma explosão de zelo por parte de fieis pagãos, assistiu a uma dramática perseguição à alguns cristãos. Nessa ocasião dois textos apologéticos surgiram: o de Quadrado e o de Aristides.
A apologia de Aristides visa a mostrar que os cristãos são os únicos detentores da verdadeira noção de Deus, demonstrando as inconsistências das concepções dos Caldeus, Gregos e Egípcios. Demonstra, ainda, o caráter elevado da vida moral cristã em profundo contraste com as corruptas práticas pagãs. O tom é nobre e calmo e procura testemunhar a razoabilidade do cristianismo mais por um apelo aos fatos do que por subtis argumentações.
Pouco se sabia sobre ele, até que em 1878, monges mequitaritas publicaram partes de um manuscrito de sua Apologia, em Veneza, junto com a tradução em latim.
Em 1889 foi descoberta, no mosteiro de Santa Catarina no monte Sinai, uma tradução siríaca completa pelo americano Rendel Harris.
Mais tarde, foram também publicados dois fragmentos gregos mais extensos, que demonstraram que a obra de Aristides influíra na literatura medieval através da lenda "Vida de Barlaão e Josafá", de autoria de São João Damasceno, que contém em seus capítulos 26 e 27 boa parte do texto grego, ainda que livremente retocado.

A Apologia ataca severamente as religiões politeístas dos caldeus, gregos e egípcios, e, embora admita que os judeus cultuam o verdadeiro Deus, acusa-os de terem desprezado a salvação do gênero humano, trazida por Jesus, por não lhe reconhecer a messianidade. Desta forma, consequentemente, os cristãos possuem o verdadeiro conhecimento de Deus e podem ser distinguidos de todos os demais pela pureza de seus costumes.

Índice do Livro:
I-II. Introdução
III-VII. Os falsos deuses dos Caldeus
VIII-XI. Os falsos deuses dos Gregos
XII. Os falsos deuses dos Egípcios
XIII. Conclusão sobre a falsa religião politeísta
XIV. O Deus dos Judeus e seus desvios da verdade
XV. O Deus vivo dos Cristãos e seus comportamentos
XVI-XVII. Conclusão



Obra: Apologia de Aristides

INTRODUÇÃO

I. Eu - ó Rei - por providência de Deus, vim a este mundo e, tendo contemplado o céu, a terra e o mar, o sol, a lua e todo o resto, fiquei maravilhado por sua ordem. Porém, vendo que o mundo e tudo o que nele há se move por necessidade, compreendi que Aquele que os move e os mantém [em movimento] é mais que estes. Afirmo, pois, ser Deus que ordenou tudo e o mantém fortemente assim. [Ele] não teve princípio e é eterno; imortal e sem necessidades; acima de todas as paixões e defeitos, da ira, do esquecimento, da ignorância e tudo o mais. Por Ele, todavia, subsiste tudo. Não precisa de sacrifício, nem libação, nem de nada do que existe; porém, tudo necessita Dele.

II. Ditas estas coisas a respeito de Deus, da forma como consegui falar sobre Ele, passemos também ao gênero humano, para saber quais dentre os homens participam da verdade e quais [participam] do erro, pois, para nós - ó Rei - é evidente que há três tipos de homens neste mundo: os adoradores daquilo que vocês chamam "deuses"; os judeus; e os cristãos. Por sua vez, os que adoram muitos deuses se subdividem em também em três gêneros: os caldeus, os gregos e os egípcios, porque estes foram os guias e mestres das demais nações no culto e adoração dos deuses de muitos homens.

OS FALSOS DEUSES DOS CALDEUS

III. Vejamos, pois, quais destes [homens] participam da verdade e quais [participam] do erro. Os caldeus, com efeito, por não conhecerem a Deus, se extraviaram por detrás dos astros e passaram a adorar as criaturas no lugar d'Aquele que os havia criado; e fazendo daqueles [astros] certas representações, passaram a clamar às imagens do céu e da terra, do sol, da lua e dos demais astros ou luminares; e, confinando-os em templos, os adoram, dando-lhes nome de deuses, guardando-os com toda a segurança, para que não sejam roubados por ladrões, sem perceber que os que guardam são superiores aos guardados, e os que constroem são superiores às suas próprias obras. Assim, se os seus deuses são impotentes para sua própria salvação, como poderiam oferecer a salvação aos outros? Logo, se extraviaram os caldeus, prestando culto a imagens mortas e inúteis.

E fico maravilhado - ó Rei - como aqueles que são, entre eles, chamados de "filósofos" não perceberam absolutamente que também esses mesmos astros são corruptíveis. Sim, e se os astros são corruptíveis e dominados pelas necessidades, como podem ser deuses? E se os astros não são deuses, como poderiam ser [deuses] as imagens feitas em honra deles?

IV. Passemos, portanto - ó Rei - aos próprios elementos, para provar que não são deuses, mas sim corruptíveis e mutáveis, desprovidos de tudo por ordem do Deus verdadeiro, Aquele que é incorruptível, imutável e invisível. Ele tudo vê, tudo muda e transforma como quer. Que posso então dizer dos astros?

Os que creem que a terra é Deusa se enganam, pois a vemos incomodada e dominada pelos homens, cavada e emporcalhada, tornando-se inútil, porque se não a aduba, converte-se em infértil como uma telha, onde nada nasce. Só que, se for regada em demasia, corrompe-se ela mesma bem como os seus frutos. Ela também é pisada pelos homens e pelos animais; se mancha com os sangues dos assassinatos; é cavada para receber os cadáveres e, assim, se converte em depósito de mortos. Sendo assim, não é possível que a terra seja deusa, mas obra de Deus, para utilidade dos homens.

V. Os que pensam que a água é Deus erram, pois também ela foi feita para a utilidade dos homens e por eles é dominada; fica suja e se corrompe; se altera quando é servida, muda de cor e congela com o frio; é levada para lavar todas as imundícies... Por isso, é impossível que a água seja Deus, mas é obra de Deus.

Os que creem que o fogo é Deus estão equivocados, pois o fogo foi feito para a utilidade dos homens e por eles é dominado; é levado de um lugar para outros para cozer e assar toda espécie de carnes e até mesmo para cremar cadáveres. Além disso, se corrompe de várias maneiras ao ser apagado pelos homens. Por isso, não é possível que o fogo seja Deus, mas obra de Deus.

Os que creem que o sopro dos ventos é Deus se equivocam, pois é óbvio que está a serviço de outro e que foi preparado por Deus, em graça aos homens, para mover os navios, transportando os alimentos, e atender às suas demais necessidades; fora isso, aumenta ou cessa pela ordem de Deus. Portanto, não é possível pensar que o vento seja Deus, mas obra de Deus.

VI. Os que creem que o sol é Deus se equivocam, pois vemos que ele se move por necessidade, muda e altera de signo, pondo-se e nascendo para desenvolver as plantas e ervas em utilidade aos homens; vemos também que possui divisões com os demais astros, que é muito menor que o céu, que sofre eclipses em sua luz e não goza de qualquer autonomia. Por isso, não é possível pensar que o sol seja Deus, mas obra de Deus.

Os que pensam que a lua é Deusa se equivocam, pois vemos que ela se move por necessidade e muda de fase, pondo-se e nascendo para a utilidade dos homens; ela é menor que o sol, cresce, reduz e sofre eclipses. Por isso, não é possível pensar que a lua seja deusa, mas obra de Deus.

VII. Os que creem que o homem é Deus erram, pois vemos que ele é concebido por necessidade, se alimenta e envelhece ainda contra a sua vontade; às vezes está alegre, outras vezes está triste, e precisa de comida, bebida e roupas; vemos, ainda, que ele guarda raiva, inveja e ambição, muda seus propósitos e tem mil defeitos; corrompe-se também de muitos modos em razão dos elementos, dos animais e da morte que lhe é imposta. Não é, portanto, admissível que o homem seja Deus, mas obra de Deus.


Assim, os caldeus se extraviaram em suas concupiscências, pois adoram os astros, elementos corruptíveis e às imagens mortas, sem compreenderem o que divinizam.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Na Vigília da Páscoa

«Na Vigília da Páscoa»

Santo Agostinho, Bispo de Hipona
(354-430)

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bem-aventurado apóstolo Paulo, exortando-nos a que o imitemos, dá entre outros sinais de sua virtude o seguinte: "freqüente nas vigílias" 1.
Com quanto maior júbilo não devemos também nós vigiar nesta vigília, que é como a mãe de todas as santas vigílias, e na qual o mundo todo vigia?
Não o mundo, do qual está escrito: "Se alguém amar o mundo, nele não está a caridade do Pai, pois tudo o que há no mundo é concupiscência dos olhos e ostentação do século, e isto não procede do Pai" 2.
Sobre tal mundo, isto é, sobre os filhos da iniqüidade, reinam o demônio e seus anjos. E o Apóstolo diz que é contra estes que se dirige a nossa luta: "Não contra a carne e o sangue temos de lutar, mas contra os principados e as potestades, contra os dominadores do mundo destas trevas" 3.
Ora, maus assim fomos nós também, uma vez; agora, porém, somos luz no Senhor. Na Luz da Vigília resistamos, pois, aos dominadores das trevas.
Não é, portanto, esse o mundo que vigia na solenidade de hoje, mas aquele do qual está escrito: "Deus estava reconciliando consigo o mundo, em Cristo, não lhe imputando os seus pecados" 4.
E é tão gloriosa a celebridade desta vigília, que compele a vigiarem na carne mesmo os que, no coração, não digo dormirem, mas até jazerem sepultos na impiedade do tártaro. Vigiam também eles esta noite, na qual visivelmente se cumpre o que tanto tempo antes fora prometido: "E a noite se iluminará como o dia" 5. Realiza-se isto nos corações piedosos, dos quais se disse: "Fostes outrora trevas, mas agora sois luz no Senhor". Realiza-se isto também nos que zelam por todos, seja vendo-os no Senhor, seja invejando ao Senhor. Vigiam, pois, esta noite, o mundo inimigo e o mundo reconciliado. Este, liberto, para louvar o seu Médico; aquele, condenado, para blasfemar o seu Juiz. Vigia um, nas mentes piedosas, ferventes e luminosas; vigia o outro, rangendo os dentes e consumindo-se. Enfim, ao primeiro é a caridade que lhe não permite dormir, ao segundo, a iniqüidade; ao primeiro, o vigor cristão, ao segundo o livor diabólico. Portanto, pelos nossos próprios inimigos sem o saberem eles, somos advertidos de como devamos estar hoje vigiando por nós, se por causa de nós não dormem também os que nos invejam.
Dentre ainda os que não estão assinalados com o nome de cristãos, muitos são os que não dormem esta noite por causa da dor, ou por vergonha. Dentre os que se aproximam da fé, há os que não dormem por temor. Por motivos vários, pois, convida hoje à vigília a solenidade (da Páscoa). Por isso, como não deve vigiar com alegria aquele que é amigo de Cristo, se até o inimigo o faz, embora contrariado? Como não deve arder o cristão por vigiar, nessa glorificação tão grande de Cristo, se até o pagão se envergonha de dormir? Como não deve vigiar em sua solenidade, o que já ingressou nesta grande Casa, se até o que apenas pretende nela ingressar já vigia?
Vigiemos, e oremos; para que tanto exteriormente quanto interiormente celebremos esta Vigília. Deus nos falará durante as leituras; falemos-lhe também nós em nossas preces. Se ouvimos obediente as suas palavras, em nós habita Aquele a. quem oramos.

Fonte: https://www.ecclesia.com.br/biblioteca/pais_da_igreja/s_agostinho_sobre_a_ressurreicao_de_cristo.html