terça-feira, 17 de outubro de 2017

Estudo 31 - Justino Mártir (165) Apologia I – Capítulos 41 ao 50

31
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Justino Mártir (165)
Apologia I – Capítulos 41 ao 50

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Profecia sobre o Reino de Cristo
41. 1 Em outra profecia, o Espírito profético, dando a entender, através de Davi, que Cristo haveria de reinar depois de crucificado, diz assim: “Louvai o Senhor, terra inteira, e anunciai dia a dia a sua salvação, porque o Senhor é grande e digno do maior louvor, temível sobre todos os deuses. Com efeito, todos os deuses das nações são imagens de demônios, mas Deus fez os céus.
2  Glória e louvor em sua presença, força e orgulho no lugar de sua santificação. Glorificai ao Senhor, aquele que é Pai dos séculos.
3 Tomai graça e entrai em sua presença, adorando-o em seus santos átrios. Toda a terra tema diante de sua face, endireite seu caminho e não se perturbe. 4 Que as nações se alegrem: o Senhor reinou pelo madeiro".

Cristo, nossa alegria
42. 1 Esclarecemos também o caso no qual o Espírito profético fala do futuro como já realizado, como já se pode conjecturar na passagem antes mencionada, a fim de que também nisso os que lêem não tenham desculpa.
2 O que é absolutamente conhecido como algo que acontecerá, é predito pelo Espírito profético como já conhecido. Que as coisas devam ser assim, ponde toda atenção de vossa mente ao que vamos dizer.
3 Davi fez a profecia citada, mil e quinhentos anos antes que Cristo feito homem fosse crucificado, e nenhum dos antes nascidos ofereceu, ao ser crucificado, alegria para as nações, e ninguém também depois dele.
4 Em troca, Cristo, que foi crucificado, morreu e ressuscitou em nosso tempo, não só reinou ao subir ao céu, mas pela sua doutrina, pregada pelos apóstolos em todas as nações, é a alegria de todos os que esperam a imortalidade que ele nos prometeu.



Profecia e livre-arbítrio
43. 1 Do que dissemos anteriormente, ninguém deve tirar a conclusão de que afirmamos que tudo o que acontece, acontece por necessidade do destino, pelo fato de que dizemos que os acontecimentos foram conhecidos de antemão. Por isso, resolveremos também essa dificuldade.
2 Nós aprendemos dos profetas e afirmamos que esta é a verdade: os castigos e tormentos, assim como as boas recompensas, são dadas a cada um conforme as suas obras. Se não fosse assim, mas tudo acontecesse por destino, não haveria absolutamente livre-arbítrio. Com efeito, se já está determinado que um seja bom e outro mau, nem aquele merece elogio, nem este, vitupério.
3 Se o gênero humano não tem poder de fugir, por livre determinação, do que é vergonhoso e escolher o belo, ele não é irresponsável de nenhuma ação que faça.
4 Mas que o homem é virtuoso e peca por livre escolha, podemos demonstrar pelo seguinte argumento:
5 Vemos que o mesmo sujeito passa de um contrário a outro.
6 Ora, se estivesse determinado ser mau ou bom, não seria capaz de coisas contrárias, nem mudaria com tanta frequência. Na realidade, nem se poderia dizer que uns são bons e outros maus, desde o momento que afirmamos que o destino é a causa de bons e maus, e que realiza coisas contrárias a si mesmo, ou que se deveria tomar como verdade o que já anteriormente insinuamos, isto é, que virtude e maldade são puras palavras, e que só por opinião se tem algo como bom ou mau. Isso, como demonstra a verdadeira razão, é o cúmulo da impiedade e da iniquidade.
7 Afirmamos ser destino ineludível que aqueles que escolheram o bem terão digna recompensa e os que escolheram o contrário, terão igualmente digno castigo. 8 Com efeito, Deus não fez o homem como as outras criaturas. Por exemplo: árvores ou quadrúpedes, que nada podem fazer por livre determinação. Nesse caso, não seria digno de recompensa e elogio, pois não teria escolhido o bem por si mesmo, mas nascido já bom; nem, por ter sido mau, seria castigado justamente, pois não o seria livremente, mas por não ter podido ser algo diferente do que foi.

Platão depende de Moisés
44. 1 Esta doutrina foi ensinada a nós pelo Espírito profético que, por meio de Moisés, nos testemunha que falou ao primeiro homem que havia criado do seguinte modo: “Olha que diante de tua face está o bem e o mal: escolhe o bem”.
2 E, de novo, através de Isaías, outro profeta, sabemos que, na pessoa de Deus, Pai e soberano do universo, foi dito o seguinte sobre esse mesmo assunto:
3"Lavai-vos e purificai-vos, tirai a maldade de vossas almas. Aprendei a fazer o bem, julgai o órfão, fazei justiça à viúva; então, vinde e conversaremos, diz o Senhor. Mesmo que vossos pecados sejam como a púrpura, eu os deixarei brancos como a lã; mesmo que sejam como escarlate, e os tornarei brancos como a neve.
4 Se quiserdes e me escutardes, comereis os bens da terra; mas se não me escutardes, a espada vos devorará, porque assim falou a boca do Senhor".
5 A expressão anterior "A espada vos devorará" não quer dizer que os que desobedecerem serão passados a fio de espada, mas por "espada" deve-se entender o fogo, cuja presa são os que escolheram praticar o mal.
6 Por isso, diz: "A espada vos devorará, porque assim falou a boca do Senhor."
7 Se tivesse falado da espada que corta e se separa imediatamente, não teria dito "devorará".
 8 De modo que o próprio Platão, ao dizer: "A culpa é de quem escolhe. Deus não tem culpa", falou isso por tê-lo tomado do profeta Moisés, pois sabe-se que este é mais antigo do que todos os escritores gregos.
9 Em geral, tudo o que os filósofos e poetas disseram sobre a imortalidade da alma e da contemplação das coisas celestes, aproveitaram-se dos profetas, não só para poder entender, mas também para expressar isso.
10Daí que parece haver em todos algo como germes de verdade. Todavia, demonstra-se que não o entenderam exatamente, pelo fato de que se contradizem uns aos outros.
11Concluindo: Se dizemos que os acontecimentos futuros foram profetizados, nem por isso afirmamos que aconteçam por necessidade do destino; afirmamos sim que Deus conhece de antemão tudo o que será feito por todos os homens e é decreto seu recompensar cada um segundo o mérito de suas obras e, por isso, justamente prediz, por meio do Espírito profético, o que para cada um virá da parte dele, conforme o que suas obras mereçam. Com isso, ele constantemente conduz o gênero humano à reflexão e à lembrança, demonstrando-lhe que cuida e usa de providência para com os homens.
12Todavia, pela ação dos maus demônios, decretou-se pena de morte contra aqueles que lerem os livros de Histaspes, da Sibila e dos profetas, a fim de impedir, por meio do terror, que os homens consigam, lendo-os, o conhecimento do bem, e retê-los como seus escravos; coisa que definitivamente os demônios não puderam conseguir.
13Com efeito, não só os lemos intrepidamente, mas também, como vedes, nós vo-los oferecemos, para que os examineis, pois estamos seguros de que agradarão a todos. Mesmo que consigamos persuadir algumas poucas pessoas, nosso ganho será muito grande, pois, como bons agricultores, receberemos do amo a nossa recompensa.

Ascensão e glória de Jesus
45. 1 Agora escutai o que disse o profeta Davi sobre o fato de que Deus, Pai do universo, levaria Cristo ao céu, depois de sua ressurreição dos mortos, e retê-lo-ia consigo até ferir os demônios, seus inimigos, e até se completar o número dos que por ele, de antemão conhecidos como bons e virtuosos, em respeito dos quais justamente ainda não foi levada a cabo a conflagração universal.
2 As palavras do profeta são estas: "Disse o Senhor ao meu Senhor: Senta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos como escabelo de teus pés.
3 O Senhor te enviará o cetro de poder de Jerusalém, e tu dominarás em meio aos esplendores de teus inimigos.
4 Contigo o império no dia de tua potência, em meio aos esplendores de teus santos. Do meu seio, antes do astro da manhã, eu te gerei”.
5 Portanto, o que ele diz "Enviar-te-á de Jerusalém o cetro de poder" era anúncio antecipado da palavra poderosa que, saindo de Jerusalém, os apóstolos pregaram por toda parte e que nós, a despeito da morte decretada dos que ensinam ou absolutamente confessam o nome de Cristo, em todo lugar também a abraçamos e ensinamos.
6 E se também vós ledes como inimigos estas nossas palavras, além de matar-nos, como já dissemos antes, nada podeis fazer. A nós, isso nenhum dano causará; a vós, porém, e a todos os que injustamente nos odeiam e não se convertem, trazer-vos-á castigo de fogo eterno.

Cristãos antes de Cristo
46. 1 Alguns, sem motivo, para rejeitar o nosso ensinamento, poderiam nos objetar que, ao dizermos que Cristo nasceu somente há cento e cinquenta anos sob Quirino e ensinou sua doutrina mais tarde, no tempo de Pôncio Pilatos, os homens que o precederam não têm nenhuma responsabilidade. Tratemos de resolver essa dificuldade.
2 Nós recebemos o ensinamento de que Cristo é o primogênito de Deus e indicamos antes que ele é o Verbo, do qual todo o gênero humano participou.
3 Portanto, aqueles que viveram conforme o Verbo são cristãos, quando do foram considerados ateus, como sucedeu entre os gregos com Sócrates, Heráclito e outros semelhantes; e entre os bárbaros com Abraão, Ananias, Azarias e Misael, e muitos outros, cujos fatos e nomes omitimos agora, pois seria longo enumerar.
4 De modo que também os que antes viveram sem razão, se tornaram inúteis e inimigos de Cristo e assassinos daqueles que vivem com razão; mas os que viveram e continuam vivendo de acordo com ela, são cristãos e não experimentam medo ou perturbação.
5 O motivo pelo qual ele nasceu homem de uma virgem, pela virtude do Verbo conforme o desígnio de Deus, Pai e soberano do universo, e foi chamado Jesus e, depois de crucificado e morto, ressuscitou e subiu ao céu, o leitor inteligente poderá perfeitamente compreendê-lo pelas longas explicações que foram dadas até aqui.
6 De nossa parte, como não é necessário demonstrar esse ponto agora, passaremos às demonstrações mais urgentes.

Sobre a ruína de Jerusalém
 47. 1 Escutai o que foi predito pelo Espírito profético sobre á devastação futura da terra dos judeus. As palavras foram ditas como que na pessoa daqueles que se maravilham com o acontecido.
2 São as seguintes: "Sião ficou deserta, Jerusalém ficou solitária, e a casa, nosso santuário, foi profanada; a glória que nossos pais bendisseram tornou-se presa do fogo e todas as suas maravilhas se fundiram.
3 A esse repeito, tu suportaste, te calaste e nos humilhaste muito".
4 Que Jerusalém tenha ficado deserta, tal como fora predito, é coisa de que estais bem convencidos.
5 E não só se predisse a sua devastação, mas também, pelo profeta Isaías, que a nenhum deles seria permitido habitar nela, com estas palavras: "A terra deles está deserta, e os próprios inimigos a devoram diante deles; e deles não haverá ninguém que nela se encontrasse e decretastes pena de morte contra o judeu que nela habite". Que vós mesmos montastes guarda para que ninguém nela fosse encontrado, é coisa que sabeis perfeitamente.

Os milagres de Cristo
48. 1 Que nosso Cristo curaria todas as enfermidades e ressuscitaria mortos, escutai as palavras com que isso foi profetizado.
2 São estas: "Diante dele, o coxo saltará como cervo e a língua dos mudos se soltará, os cegos recobrarão a vista, os leprosos ficarão limpos e os mortos ressuscitarão e começarão a andar".
3 Que tudo isso foi feito por Cristo, vós o podeis comprovar pelas Atas redigidas no tempo de Pôncio Pilatos.
4 Sobre como foi de antemão indicado que ele haveria de ser morto, juntamente com os homens que nele esperam, escutai as palavras do profeta Isaías:
5 "Eis como pereceu o justo, e ninguém reflete em seu coração; varões justos são tirados do meio, e ninguém considera. O justo é tirado da vista da iniquidade, e ficará em paz: seu sepulcro é tirado do meio" .

A gentilidade
49. 1Novamente olhai o que o profeta Isaías diz: os povos das nações que não o esperavam, iriam adorá-lo; ao contrário, os judeus que o esperavam, o desconheceram quando ele veio. As palavras são ditas na pessoa de Cristo.
2Ei-las: "Manifestei-me aos que não perguntavam por mim, fui encontrado por aqueles que não me buscavam. Eu disse: ‘Eis-me aqui' a uma nação que não invocava o meu nome. 3 Estendi minhas mãos a um povo que não crê e contradiz, aos que andam por caminho não bom, mas atrás de seus pecados.
4 O povo que me exaspera está diante de mim"
5 Foi assim que os judeus, que possuíam as profecias e esperavam continuamente Cristo, quando este veio não o reconheceram; e não apenas isso, pois inclusive o maltrataram. Ao contrário, os gentios, que nunca tinham ouvido falar dele até que os apóstolos, tendo saído de Jerusalém, lhes contaram sua vida e lhes entregaram as profecias, cheios de alegria e de fé, renunciaram aos ídolos e se consagraram ao Deus ingênito, por meio de Cristo.
6 Que de antemão foram conhecidas essas ignomínias que se propagariam contra os que confessam a Cristo e como são miseráveis aqueles que o blasfemam, dizendo que é bom preservar os antigos costumes, escutai como o profeta Isaías o diz brevemente.
7 São suas as palavras: "Ai daqueles que chamam amargo ao doce e doce, ao amargo!"

 A paixão e glória de Cristo
50. 1 Escutai agora as profecias relativas à paixão e desonras que, feito homem, ele sofreria por nós, e a glória com que voltará.
2 São estas: "Porque entregaram sua alma à morte e foi contado entre os iníquos, ele tomou os pecados de muitos e se reconciliará com os iníquos.
3 Eis que meu servo entenderá, será levantado e glorificado muito.
4 Do mesmo modo como muitos ficarão atônitos à tua vista - tão desonrada está a tua figura dos homens e tua glória tão longe dos homens - assim muitas nações ficarão maravilhadas e reis permanecerão silenciosos, porque aqueles para os quais não foi anunciado verão, e os que não ouviram, entenderão.
5 Senhor quem creu naquilo que ouviu de nós? Para quem foi revelado o braço do Senhor? Anunciamos diante dele como menino, como raiz em terra sedenta.
6 Ele não tem beleza nem glória; nós o vimos e não tinha beleza nem formosura, mas o seu aspecto estava desonrado e debilitado em comparação com os homens.
7 Homem sujeito ao açoite e que sabe suportar a enfermidade, seu rosto está escondido, foi desonrado e desprezado.
8 Leva sobre si nossos pecados e padece por nós, e nós consideramos que ele estava em fadiga, em açoite e desgraça.
9 Ele foi ferido por causa de nossas iniquidades e debilitado por causa de nossos pecados. A disciplina da paz estava sobre ele, fomos curados por sua chaga.
10Todos nós andávamos errantes como ovelhas, cada um se desviou pelo próprio caminho. Entregou-se por nossos pecados e, ao ser maltratado, não abre a boca. Foi levado como ovelha ao matadouro; como cordeiro que fica mudo diante daquele que o tosquia, ele também não abre a boca.
11Em sua humilhação, o seu julgamento foi tirado"mmm.
12Depois de ser crucificado, até seus discípulos o abandonaram e negaram. Depois, porém, quando ressuscitou dentre os mortos e foi visto por eles, depois que lhes ensinou a ler as profecias nas quais estava predito que isso deveria acontecer, e o viram subir ao céu e creram, depois que receberam a força que de lá lhes foi enviada por ele, espalharam-se entre todo tipo de homens, ensinaram-lhes todas essas coisas e foram chamados apóstolos.


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quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Estudo 30 - Justino Mártir (†165) - I Apologia: Capítulos 32 ao 40

30
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Justino Mártir (†165)
I Apologia: Capítulos 32 ao 40


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32. 1 Moisés, que foi o primeiro dos profetas, disse literalmente: "Não faltará príncipe de Judá, nem chefe saído de seus músculos, até que venha aquele a quem está reservado. Ele será a esperança das nações, amarrando seu jumentinho à vinha e lavando sua roupa no sangue da uva" .
2 Portanto, é vosso dever averiguar com todo o rigor e inteirar-vos até quando os judeus tiveram príncipe e rei saído deles, até à aparição de Jesus Cristo, nosso Mestre e intérprete das profecias desconhecidas, tal como foi de antemão dito pelo Espírito Santo profético, por meio de Moisés, que não faltaria príncipe dos judeus até aquele para o qual está reservada a realeza.
3 Judá foi o antepassado dos judeus, e dele os judeus receberam esse nome, e vós, depois da aparição de Cristo, imperastes sobre os judeus e vos apoderastes de toda a sua terra.
4 As palavras: "Ele será a esperança das nações" queria dizer que gente de todas as nações esperará novamente a sua vinda, coisa que podeis ver com os vossos próprios olhos e comprovar na realidade, pois gente de todas as raças de homens espera aquele que foi crucificado na Judéia, depois de cuja a morte imediatamente a terra dos judeus foi tomada ao poder de lanças e entregue a vós.
5 A expressão: "Amarrando seu jumentinho à vinha e lavando sua roupa no sangue da uva" era símbolo do que havia de acontecer a Cristo e do que seria feito por ele.
6 Com efeito, foi assim que, na entrada de certa aldeia, estava um jumentinho amarrado a uma parreira, e ele mandou que seus discípulos lho levassem e, depois que o jumentinho foi levado, montou sobre ele e assim entrou em Jerusalém, onde estava o maior templo dos judeus, o mesmo que mais tarde foi destruído por vós. Depois da entrada em Jerusalém, ele foi crucificado, a fim de que se cumprisse o resto da profecia.
7 De fato, a passagem de que lavaria sua roupa no sangue da uva, era anúncio antecipado de sua paixão, significando que sofreria para lavar com seu sangue aqueles que acreditariam nele.
8 Com efeito, o que o Espírito divino chama pelo profeta "sua roupa", são os homens que crêem nele, nos quais habita a semente que procede de Deus, e que é o Verbo.
9 E fala-se também do "sangue da uva", para dar a entender que aquele que havia de aparecer teria certamente sangue, mas não de sêmen humano, e sim de virtude divina.
10  O Verbo é a primeira virtude ou potência depois de Deus, Pai e soberano de todas as coisas, e Filho seu. Como esse se tornou carne e nasceu homem, nós o diremos mais adiante.
11 De fato, do mesmo modo que o sangue da uva não é feito pelo homem, mas por Deus, da mesma forma dava-se a entender nessas palavras que o sangue de Cristo não procederia de sêmen humano, mas de virtude de Deus, como já dissemos.
12 E Isaías, outro profeta, diz a mesma coisa com outras palavras: "Levantar-se-á uma estrela de Jacó e uma flor subirá da raiz de Jessé; e as nações esperaram sobre o seu braço." Com efeito, uma estrela brilhante se levantou e uma flor subiu da raiz de Jessé, que é Cristo.
13 De fato, ele foi concebido, com a força de Deus, por uma virgem descendente de Jacó, que foi pai de Judá, antepassado dos judeus, de quem eu já falei; segundo o oráculo, Isaí foi o seu avô e Cristo, segundo a sucessão das gerações, é filho de Jacó e de Judá.

A concepção virginal

33. 1 Escutai agora como foi literalmente profetizado por Isaías que Cristo seria concebido por uma virgem. Ele diz o seguinte: "Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho e lhe porão o nome ‘Deus conosco’ " .
2 O que os homens poderiam considerar incrível e impossível de acontecer, Deus o indicou antecipadamente por meio do Espírito profético, para que quando acontecesse, não lhe fosse negada a fé, e sim, justamente por ter sido predito, fosse acreditado.
3 Esclareçamos agora as palavras da profecia para que, por não entendê-la, objetem o mesmo que nós dizemos contra os poetas, quando nos falam de Zeus que, para satisfazer sua paixão libidinosa, uniu-se com diversas mulheres.
4 Portanto, "Eis que uma virgem conceberá" significa que a concepção seria sem relação carnal, pois, se esta houvesse, ela não mais seria virgem; mas foi a força de Deus que veio sobre a virgem e a cobriu com a sua sombra e fez com que ela concebesse permanecendo virgem.
5 Foi assim que naquele tempo, o mensageiro, enviado da parte de Deus à mesma virgem, deu-lhe a boa notícia, dizendo: "Eis que conceberás do Espírito Santo em teu ventre e darás à luz um filho, que se chamará Filho do Altíssimo, e lhe porás o nome de Jesus, pois ele salvará o seu povo de seus pecados". Assim nos ensinaram os que consignaram todas as lembranças referentes ao nosso Salvador Jesus Cristo, e nós lhes demos fé, pois o Espírito Santo profético, como já indicamos, disse pelo citado Isaías que o geraria.
6 Portanto, por Espírito e força que procede de Deus não é licito entender a não ser o Verbo, que é o primogênito de Deus, como Moisés, profeta antes mencionado, o deu a entender. Vindo ele sobre a virgem e cobrindo-a com sua sombra, não por meio de relação carnal, mas por sua força, fez com que ela concebesse.
7 Quanto a Jesus, é nome da língua hebraica, que significa em grego Sotér, isto é, Salvador.
8 Daí que o mensageiro disse à virgem: "Tu lhe porás o nome de Jesus, pois ele salvará o seu povo de seus pecados".
9 Que aqueles que profetizam não são inspirados por nenhum outro, mas pelo Verbo divino, suponho que mesmo vós o admitis.

Lugar de nascimento

34. 1 Escutai agora como Miquéias, outro profeta, predisse o lugar da terra em que ele nasceria. Assim diz: "E tu, Belém, terra de Judá, de modo algum és a menor entre os príncipes de Judá, pois de ti sairá o chefe que apascentará o meu povo"mm.
2 Sabe-se que há no país dos judeus uma aldeia que dista de Jerusalém trinta e cinco estádios e que nela nasceu Jesus Cristo, como podeis comprovar pelas listas do recenseamento, feitas sob Quirino, que foi o vosso primeiro procurador na Judéia.

Várias profecias
35. 1 Também foi predito que Cristo, depois de nascer, viveria oculto aos outros homens, até à idade adulta. Escutai o que foi dito antecipadamente a esse respeito.
2 É o seguinte: "Um menino nasceu, um pequenino nos foi dado, cujo império está sobre os ombros"nn, aludindo essas palavras à força da cruz, à qual, ao ser crucificado, juntou os ombros, como a seqüência do discurso mostrará mais claramente.
3 E, de novo, o mesmo profeta Isaías, inspirado pelo Espírito profético, disse: "Eu estendi as minhas mãos para um povo que não crê e contradiz, aos que andam por um caminho que não é bom.
4 E agora me vêm pedir julgamento e têm a ousadia de aproximar-se de Deus".
5 E outra vez, por meio de outro profeta, diz com outras palavras: "Eles transpassaram meus pés e minhas mãos, e lançaram sorte sobre a minha roupa"pp.
6 Na verdade, Davi, rei e profeta, que disse isso, não sofreu nada disso, mas Jesus Cristo estendeu as suas mãos quando foi crucificado pelos judeus que o contradiziam e falavam que ele não era o Messias. Com efeito, como disse o profeta, levaram-no arrastando e, fazendo-o sentar-se numa cadeira de juiz, disseram-lhe: "julga-nos".
7 "Transpassaram as minhas mãos e os meus pés" significava os cravos que na cruz transpassaram seus pés e mãos.
8 E depois de crucificá-lo, aqueles que o crucificaram lançaram sorte sobre as suas roupas e as repartiram entre si.
9 Que tudo isso aconteceu assim, podeis comprová-lo pelas Atas redigidas no tempo de Pôncio Pilatos.
10Citamos também a profecia de outro profeta, Sofonias, que literalmente profetizou que ele montaria sobre um jumentinho e desse modo entraria em Jerusalém.
11São estas as suas palavras: "Alegra-te muito, filha de Sião; dá gritos, filha de Jerusalém. Eis que o teu rei vem a ti manso, montado sobre um jumento, sobre um jumentinho, filho de um animal de jugo".

Regras de interpretação
36. 1 Percebamos que quando ouvis que os profetas falam como em própria pessoa, não deveis pensar que assim falam os próprios homens inspirados, mas é o Verbo divino que os move.
2 Algumas vezes ele fala como que anunciando de antemão o que vai acontecer, outras como se estivesse no lugar de Deus, Soberano e Pai do universo, outras na pessoa de Cristo, e outras ainda, das pessoas que respondem ao seu Pai e Senhor. Algo semelhante acontece com vossos próprios escritores, em que um é aquele que escreveu tudo, mas são várias as pessoas que entram no diálogo.
3 Não entendendo isso, os judeus, que são aqueles que possuem os livros dos profetas, não só não reconheceram a Cristo já vindo, mas também odeiam a nós, que dizemos que ele de fato veio, e mostramos que, como fora profetizado, foi por eles crucificado.

37. 1 Para que também isso fique claro para vós, eis aqui algumas palavras que foram ditas pelo profeta Isaías, antes mencionado, na pessoa do Pai: "O boi conhece o seu dono e o jumento a manjedoura de seu senhor; mas Israel não me conheceu e o meu povo não me entendeu.
2 Ai da nação pecadora, do povo cheio de pecados; descendência má, filhos iníquos: abandonastes o Senhor" .
3 De novo, em outra passagem em que o mesmo profeta fala igualmente na pessoa do Pai: "Que casa me edificareis? - diz o Senhor.
4 O céu é o meu trono, e a terra o escabelo dos meus pés"ss.
5 E outra vez, em outra passagem: "As vossas luas novas e os vossos sábados, a minha alma os detesta; o vosso dia de grande jejum e a vossa ociosidade, eu não os suporto. Nem mesmo quando vos apresentais diante de mim eu vos escutarei.
6 Vossas mãos estão cheias de sangue.
7 Até quando me trazeis flor de farinha ou incenso, isso é abominação para mim; não quero a gordura de carneiros ou sangue de novilhos.
8 Com efeito, quem pediu essas coisas de vossas mãos? Desata antes toda atadura de injustiça, rompe as cordas dos contratos injustos, cobre aquele que está nu e aquele que não tem teto, reparte o teu pão com o faminto" .
9 Portanto, com essas passagens podeis entender que tais são os ensinamentos que os profetas dão na pessoa de Deus.

38. 1 Quando o Espírito profético fala na pessoa de Cristo, ele se expressa assim: "Eu estendi as minhas mãos a um povo que não crê e contradiz, aos que andam por um caminho que não é bom".
2 E, novamente: "Entreguei minhas costas aos açoites e minhas faces às bofetadas, e não afastei o meu rosto da vergonha das cuspidas.
3 E o Senhor se tornou o meu auxílio; por isso eu não fui confundido, mas transformei o meu rosto em rocha dura, e soube que não seria confundido, pois está perto aquele que me justifica".
4 E o mesmo quando diz: "Eles lançaram sorte sobre as minhas roupas, e transpassaram as minhas mãos e os meus pés;
5 mas eu adormeci e me entreguei ao sono e ressuscitei, porque o Senhor me protegeu".
6 E outra vez quando diz: "Cochichavam com os seus lábios e balançaram a cabeça, dizendo: Salve-se a si mesmo.
7 Podeis comprovar que tudo isso cumpriu-se através dos judeus em Cristo.
8 Com efeito, estando já na cruz, eles retorciam os lábios e balançavam a cabeça, dizendo: "Quem ressuscitou mortos livre-se a si mesmo".

Profecia cumprida

39. 1 Quando o Espírito profético fala, profetizando sobre o futuro, ele diz assim: "Porque de Sião sairá a lei, e de Jerusalém a palavra do Senhor de Jerusalém; ele julgará no meio das nações e argüirá um povo numeroso. Quebrarão suas espadas e farão arados, e transformarão suas lanças em foices; uma nação não pegará a espada contra outra nação, nem saberão mais o que é a guerra".
2 Que assim tenha acontecido, podeis comprová-lo.
3 Com efeito, de Jerusalém saíram doze homens pelo mundo, e estes ignorantes e incapazes de eloqüência; todavia, pela força de Deus, persuadiram todo o gênero humano de que haviam sido enviados por Cristo para ensinar a todos a palavra de Deus. Nós, que antes nos matávamos mutuamente, agora não só não fazemos guerra contra os nossos inimigos, mas também, por não mentir nem enganar os juízes que nos interrogam, morremos felizes de confessar a Cristo.
4 Pudéssemos nós aplicar ao nosso caso o dito: "A língua jurou, mas a alma não jurou".
5 Seria ridículo que os soldados que se contratam convosco e se alistam em vossas bandeiras pusessem a lealdade para convosco acima de sua própria vida, acima dos pais, pátria e tudo o que lhes pertence, embora nada de imperecível lhes pudésseis oferecer, e nós, que amamos a incorrupção, não suportemos tudo a troco de receber o que esperamos daquele que tem poder para no-lo dar.

Profecia sobre os apóstolos

40. 1 Escutai agora o que foi predito sobre os que pregaram a sua doutrina e anunciaram a sua vinda. O já mencionado profeta e rei diz assim por obra do Espírito profético: "O dia transmite a palavra a outro dia, e a noite anuncia o conhecimento a outra noite.
2 Não há discursos nem palavras, cuja voz não se ouça.
3 Sobre toda a terra se espalhou o som deles, e até aos confins do orbe da terra chegaram as suas palavras.
4 No sol colocou a sua tenda, e este, como esposo que sai do seu quarto, se regozijará como gigante para percorrer o seu caminho".
5 Além disso, acreditamos ser oportuno e apropriado ao nosso intento mencionar outras palavras profetizadas pelo mesmo Davi, através das quais podeis inteirar-vos de como o Espírito profético exorta os homens a viver
6 e como mostra a conspiração que Herodes, rei dos judeus, os próprios judeus, Pilatos, que foi vosso procurador na Judéia, e seus soldados tramaram juntos contra Cristo.
7 Notai também como se profetiza que pessoa de toda raça de homens deveriam crer nele, que Deus o chama de seu Filho e promete submeter-lhe todos os seus inimigos; ainda como os demônios, enquanto podem, procuram escapar do poder de Deus Pai e soberano de tudo e de Cristo; por fim, como Deus chama todos à penitência antes de chegar o dia do julgamento.
8 As profecias dizem o seguinte: "Bem-aventurado o homem que não anda no desígnio dos ímpios, não pára no caminho dos pecadores, nem se assenta no assento da perdição, mas se compraz na lei do Senhor e que dia e noite medita em sua lei.
 9 Será como árvore plantada junto às correntes das águas, que dará seu fruto no devido tempo e suas folhas não cairão, e em tudo o que fizer será bem sucedido.
10Não assim os ímpios, não assim, mas como o pó que o vento espalha sobre a face da terra. Por isso, os ímpios não se levantarão no dia do julgamento, nem os pecadores no conselho dos justos. De fato, o Senhor conhece o caminho dos justos e o caminho dos ímpios perecerá.
11Por que as nações fremiram e os povos meditaram novidades? Os reis da terra apresentaram-se e os príncipes se juntaram contra o Senhor e contra o seu Ungido, dizendo: ‘Rompamos suas amarras e arranquemos de nós o seu jugo'.
12Aquele que habita nos céus rir-se-á deles, e o Senhor os fará objeto de sua zombaria. Então, falar-lhes-á com ira e com sua indignação os perturbará.
13 Eu, porém, fui constituído por ele como rei sobre Sião, seu monte santo, para anunciar o seu decreto.
14O Senhor me disse: Tu és o meu Filho, eu hoje te gerei.
15Pede-me e te darei as nações como tua herança e os confins da terra como tua propriedade. Apascenta-los-ás com cetro de ferro, como vaso de oleiro as farás em pedaços.
16E agora, reis, entendei; instruí-vos, vós que julgais a terra.
17Servi ao Senhor no temor, e no tremor regozijai-vos nele.
18Aprendei a disciplina; não aconteça que, em certo momento, o Senhor se irrite e pereçais saindo do caminho justo, quando de repente sua ira se acender.
19Felizes todos os que nele confiam."


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quarta-feira, 4 de outubro de 2017

O Valor da Comunidade e a Oração no Monasticismo Luterano

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O Valor da Comunidade e a Oração no Monasticismo Luterano
Por Devin Ames

O monaquismo pode parecer um termo associado a práticas do passado. Na atualidade o que mais pensamos sobre monaquismo são os monges católicos e ortodoxos espalhados pelo mundo. O que a maioria das pessoas não espera é que haja uma Comunidade Monástica Beneditina luterana aqui mesmo nos Estados Unidos. Qual é o propósito desta comunidade, e por que os homens decidem se tornar monges luteranos nos Estados Unidos hoje?
Estou me aproximando desta questão com minhas próprias experiências depois de passar um mês (Janeiro de 2017) na Casa de Santo Agostinho, o monastério beneditino luterano localizado em Oxford, Michigan. Isso inclui ler o julgamento de Martin Luther sobre os votos monásticos e Life Together por Dietrich Bonhoeffer, além de participar de discussões que tive com os monges, o padre João, o irmão Ricardo e o padre Jude. A razão pela qual eu escolhi as duas fontes literárias é que a influência de cada uma foi visível e vivida na vida diária no mosteiro. Eles se conectam com os monges através de perspectivas em votos também como a importância da comunidade. Nas fontes e nos pensamentos dos monges, a importância contínua do monaquismo é muito trabalhada. Explorarei isso discutindo o desafio dos votos monásticos apresentados no julgamento de Martin Luther e o valor da comunidade e da oração em Bonhoeffer's Life Together. Depois disso, vou descrever como o padre John, o irmão Richard e o padre Jude entendem o papel e a importância do monaquismo luterano hoje. Eu fecharei apresentando minhas conclusões dos meus estudos no mosteiro.

O Julgamento de Martin Lutero
O julgamento de Martin Luther sobre votos monásticos configura uma situação interessante em que o monaquismo como um todo pode parecer retratado como errado, principalmente sobre os votos. Evidências em relação a isso são mostradas ao longo do trabalho, como os títulos da seção 1 "Votos não resistem à Palavra de Deus: correm contra a Palavra de Deus" (Lutero 252),2 e a seção 5 "O monasticismo é contrário ao sentido comum e à razão" (Luther 336). Simplesmente olhando para esses títulos de seção, a conexão positiva entre o monaquismo de Lutero parece magro ou inexistente.
Primeiro, se os votos são contrários à Palavra de Deus, e sabe-se que os monges fizeram votos e se tornarem monges, parece que eles podem não estar ouvindo Lutero no todo.
Em segundo lugar, se Lutero estiver correto em relação ao senso comum e à razão, então, claramente, quem optar por ser um monge está faltando em ambos. No entanto, há mais coisas envolvidas em seu trabalho que devem ser estudadas antes de uma conclusão ser elaborada.
Podemos começar por desempacotar os votos monásticos, pois Lutero diz "não há dúvida de que o o voto monástico é ... sem a autoridade e o exemplo da Escritura "(Lutero 252). Os votos não estão em tudo representado na Escritura, e assim ele é capaz de explicar que eles são simplesmente uma criação humana. Esta é uma condenação de votos que são impostas às comunidades monásticas porque eles parecem sugerir que "ao fazer essas obras, eles podem alcançar o que os santos alcançam somente pela fé "(Lutero 271). O que Lutero faz aqui não é um ataque diretamente, mas ele ataca a prática de instar votos simplesmente com o propósito de tentar ser como os santos. Quando os santos se tornam o centro da prática religiosa, Deus não está mais no centro, e isso é o que Lutero considera problemático.
Uma grande objeção que Lutero mantém com votos é o fato de que eles podem mover o centro de vida monástica para longe de Deus, mas ele também impugna fortemente que os monges tomem os votos "sob o pretexto de uma maior piedade "(Lutero 283). A vida monástica é uma opção, para algumas pessoas sua melhor opção, mas a piedade não aumenta de simplesmente se tornar um monge. Neste ponto, ainda pode ficar claro quanto um voto é aceitável, mas Lutero ajuda a explicar isso quando diz que "a fé permanece indecente somente quando um voto é considerado uma questão de livre escolha e não como necessário para alcançar justiça e salvação "(Lutero 296). Os votos necessários se tornam problemáticos, pois parecem apontar para um caminho que é mais piedoso do que outros, mas um voto que é feito por um indivíduo porque é o que eles escolhem jurar parece ser aceitável para Lutero. Desta forma, os "votos" tornam-se mais de observância individual em vez de estritamente obrigação forçada.
Embora esses pontos de vista dos votos monásticos possam parecer claros, Lutero rejeita votos monásticos como um caminho para uma maior santidade ou um meio para obter a salvação, mas ele levanta outras críticas ainda. Lutero também acredita que o monaquismo "impede o serviço a todos os monges" (Lutero 335). É claro que Lutero ficou bastante frustrado com as voltas que o monaquismo tinha tomado, e isso parece ser uma crítica a eles. Uma sociedade monástica que só permite a seus membros a trabalhar para o melhoramento dos membros parecem se afastar de muitos dos ensinamentos da Bíblia em torno dos quais a vida se centra. Por exemplo, uma passagem da Bíblia "de verdade, eu lhe digo, o que você fez por um dos meus irmãos e irmãs menores, você fez por mim" (Mt 25.40). Com isso em mente, está o sentido da crítica de Lutero.
Assim, uma tomada moderna sobre o monaquismo em que o serviço aos outros não é impedido, os votos não são forçados, mas feitos pela escolha individual e em que um não é feito mais piedoso, não pode mais contrariar a Palavra de Deus ou mentir ao contrário do bom senso e razão.
Os monges não se consideram mais piedosos porque veem suas vidas mais próximas de Deus ou são mais propensos a ganhar a salvação.
A comunidade monástica na casa de Santo Agostinho é composta por três monges professos: o padre John, o padre Jude e o irmão Richard. Há também membros associados, outros que estão no caminho do discernimento em relação à vida monástica, e que visitam durante todo o ano.
Os membros da comunidade trabalham juntos para se apoiar e completar tarefas diárias. Embora a comunidade monástica seja pequena, é e continuará a ser importante como parte do luteranismo hoje.
O padre John disse que "o mosteiro será um lugar muito exigente à medida que as pessoas experimentam a loucura da vida e nenhuma maneira de sair dela".
Algumas ideias a partir do mosteiro que pode ser servido nesta situação são o silêncio, a pobreza e o celibato.
Tomados como votos, estes não ajudam a obter a salvação ou a viver uma vida mais santa do que qualquer outra pessoa. O que eles são capazes de fazer na comunidade é fornecer uma maneira para os monges viverem em serviço a Deus, pois são diretrizes das quais os monges escrevem votos para moldar suas vidas monásticas. Além disso, os monges usam suas vidas para compartilhar com a comunidade e com os convidados e todas as pessoas para que eles não fiquem presos simplesmente por si mesmos.
O silêncio será abordado mais tarde, então eu vou para a pobreza. Neste caso, a pobreza não está se referindo a fome, mas está na linha de não ultrapassar, como reconhece que não há necessidade de ser rico. Essa interpretação da pobreza pode ser contestada por algumas pessoas, mas é a forma de pobreza que é observada.
O celibato não é um fardo, mas afim de se libertar de deveres para uma família para que eles possam dar tudo para ajudar os outros.
O silêncio, a pobreza e o celibato são todos incorporados ao cotidiano no mosteiro e preenchem a vida de todos os que passam algum tempo lá.
O livro de Dietrich Bonhoeffer, Life Together, e as opiniões dos monges, podem ser reunidos em duas categorias importantes: comunidade e oração. Bonhoeffer traz à discussão sua descrição da vida em uma comunidade cristã enquanto ele passa por aspectos importantes de cada dia, mas também a importância da comunidade como um todo. "O cristão não pode simplesmente dar por certo o privilégio de viver entre outros cristãos" (Bonhoeffer 1). Há algo especial sobre poder viver em comunidade com outros cristãos. Na verdade eu não entendi isso até ter a oportunidade de viver no seu mosteiro.
Quando um grupo de pessoas se reúne para adorar juntos no mundo, eles podem se tornar seguras, mas seguem seus caminhos separados durante a semana, reunindo ocasionalmente em grupos menores, mas quando se vive em comunidade com os outros, a experiência muda.
A vida da comunidade está interligada que funciona como uma família. A comunidade compartilha um cronograma diário de trabalho, culto, companheirismo e meditação. Além disso, há também o aspecto do serviço. De acordo com Bonhoeffer, viver em uma comunidade cristã é uma benção que leva ao serviço enquanto faz tempo para o silêncio, a oração e a reflexão.
O serviço pode vir de várias formas, e sempre que "a escuta, a utilidade ativa e o relacionamento com os outros está sendo realizado com fidelidade, o ministério supremo e supremo também pode ser oferecido, o serviço da Palavra de Deus" (Bonhoeffer 80).
No mosteiro descobri que, se eu estivesse varrendo a capela, ajudando a preparar uma refeição ou trabalhando no escritório, a Palavra de Deus estava sendo vivida na comunidade.
As ações dos membros da comunidade para o sucesso e a formação das outras formas um vínculo que se centrou na comunidade cristã em Cristo. Enquanto os irmãos se dedicavam a uma vida comum, eles também entendiam o serviço como um envolvimento mais amplo com o mundo ao seu redor, o que foi demonstrado de muitas maneiras, como um serviço de adoração da comunidade para a unidade cristã e através da sua prática de hospedar convidados. O que torna uma comunidade cristã especial é que "é fundada unicamente em Jesus Cristo, é espiritual e não uma realidade emocional "(Bonhoeffer 13).
Esta fundação pode, como eu vi no mosteiro, levar pessoas de diferentes origens, que provavelmente não podiam se dar bem em qualquer outro ambiente. Isso se torna tão especial porque a comunidade de pessoas, por mais diferentes que sejam, está trabalhando juntas para "mostrar Cristo encarnado no mundo, que as pessoas de fora acreditam ou não "graças à realidade espiritual e às intenções da comunidade” (Pe. Jude).
Outro aspecto importante de estar em comunidade são os intervalos de silêncio e solidão. No mosteiro passei longas horas na solidão e no silêncio, e descobri que é muito verdade que "o silêncio é subavaliado na vida" (Pe. John). Este aspecto da vida é importante, porque permite que as pessoas tomem tempo para refletir não só na conexão deles com Deus, mas também com seu papel e função na comunidade em que vivem.
A solidão é importante na comunidade, porque quando as pessoas passam o tempo sozinhas e depois se reúnem novamente na comunidade, "trazem consigo a benção de sua solidão, mas eles mesmos recebem novamente a benção da comunidade" (Bonhoeffer 67).
O monasticismo é poderoso em comunidade, mas também quando em solidão, porque "mesmo quando você está sozinho, há um ritmo maior de monaquismo que pode afetar o seu dia" (Fr. Richard).
A oração é um aspecto central da vida em uma comunidade centrada em Cristo. Isso pode assumir a oração tanto na comunidade quanto na meditação pessoal. De muitas maneiras, a vida monástica é uma "igreja que continua como a igreja primitiva, com dedicação e oração regular", que fornece uma estrutura em torno da qual o resto do dia é organizado (Ir. Richard). Esta estabilidade e equilíbrio tanto a oração e reflexão para permanecer importante todos os dias, apoiando uma constante conversão com Deus.
A forma central de oração no mosteiro é a leitura e o canto dos Salmos, que Bonhoeffer sustenta: "Cantando juntos junta-se à oração dos Salmos e das Escrituras. Nisto, a voz da igreja é ouvida em louvor, ação de graça e intercessão "(Bonhoeffer 38).
A leitura das Escrituras, bem como outras orações juntas também são formativas nos dias do mosteiro, todas as quais são um constante lembrete do foco central em torno do qual a comunidade se forma, Jesus Cristo.
A oração individual, ou meditação também é importante na rotina diária. No mosteiro, a meditação pessoal é uma experiência formativa em que os monges são um exemplo e um recurso para que alguém experimente "o desenvolvimento espiritual e aprofundar a relação pessoal com Deus" (Pe. Jude).
A ideia de ficar sozinha em silêncio pode ser incômoda e parecer uma perda de tempo. Além disso, as distrações são prevalentes, por isso parece que seria possível afastar-se ou simplesmente se perder em pensamento, mas na realidade "a meditação não permite afundar no vazio e no abismo da solidão, mas sim nos permite estar sozinhos com a palavra "(Bonhoeffer 60).
Vivendo em uma comunidade monástica onde a Palavra é central e todas as pessoas compartilham diariamente, também é importante levar tempo sozinho com a Palavra. A pessoa vem de realidades diferentes com diferentes crenças, precisará de mais tempo para refletir sobre uma variedade de ideias e passagens.
O propósito para o monástico varia de grupo para grupo e até de monge a monge, mas a principal missão é clara: eles "se concentram no Reino de Deus" (Fr. Richard). Exatamente qual a forma que estes podem diferir, mas o objetivo final permanece o mesmo. Por exemplo, quando perguntado sobre o propósito do monaquismo hoje, os monges me deram respostas diferentes. Alguns dos principais pontos explicados aqui foram mostrar a presença de Deus, abordar o alcance excessivo e fugir da loucura da vida moderna. O Irmão Richard disse que as pessoas "não veem Deus diretamente, mas podem sentir sua presença em um mosteiro e na funcionalidade da comunidade monástica".
Nesta declaração, o propósito de ajudar os outros a testemunhar a Deus é atribuído ao monaquismo. Abrange também a ideia de que as pessoas vivem suas vidas intencionalmente, com cada parte estruturada do dia destinada a manter o foco em Deus e na Palavra, de uma forma tão intensa que os que testemunham a vida da comunidade demonstram essencialmente o poder de Cristo. O padre Jude falou sobre como "o monaquismo é e como pode ser superado". Em um mundo que está sempre procurando o mais novo e melhor item, o monaquismo ajuda as pessoas a dar um passo atrás e pensar sobre o que é importante em suas vidas. Viver nesta comunidade, tempo, espaço e possessões são compartilhadas. Todos dentro do mosteiro têm tudo o que eles precisam, e também compartilham o que cada um tem.
É importante lembrar-se de cuidar um do outro como Jesus, portanto, trabalhando assim é capaz de trazer o foco para a Palavra e Deus.
No meu tempo no mosteiro, descobri um propósito de ser uma testemunha de Deus. Para que as pessoas testemunhem essa vida, devem poder passar o tempo dentro da comunidade.
Como convidado, fui rapidamente recebido na família monástica e tornei-me parte da comunidade, não só os monges, mas também os outros convidados. Alguns já frequentam o mosteiro há muito tempo, outros estavam ali pela primeira vez e entraram comigo.
Eu posso dizer que, através de todos eles, Cristo brilhou de uma forma ou de outra. Ao estar juntos para a oração, as refeições, o trabalho e as conversas, descobri que a comunidade monástica era tão poderosa quanto uma comunidade de igrejas e, ao mesmo tempo, era uma força sólida na vida de todos os que passavam o tempo ali. Com tudo isso em mente, posso dizer com confiança que, tanto nas mentes dos monges luteranos quanto em todos os que estão familiarizados com a comunidade monástica, "o monaquismo é um presente para a igreja ... antes de tudo" (Pe. John).


terça-feira, 3 de outubro de 2017

7º Estudo da OFSE - Biografia de Francisco de Assis - Tomás Celano - Cap 26 a 29

Biografia de Francisco de Assis
Tomás de Celano
1Celano  - Capítulos 26 a 29.

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CAPÍTULO 26. Expulsão de um demônio também em Città di Castello
70. Havia, em Città di Castello, uma mulher possessa do demônio. Estando lá o santo pai Francisco, levaram a mulher à casa em que ele estava. Fora da casa, a mulher começou a ranger os dentes e a uivar com voz espantosa, como é costume dos espíritos imundos. Muitas pessoas daquela cidade, homens e mulheres, foram rogar a São Francisco por aquela infeliz, porque já fazia muito tempo que o espírito maligno perturbava a ela com os seus tormentos e a todos com os seus uivos. O santo pai enviou-lhes então um frade que estava com ele, para provar se era mesmo um demônio ou era fingimento da mulher. Quando o viu, ela começou a rir dele, sabendo que não era absolutamente São Francisco. O pai santo estava orando lá dentro e, quando terminou a oração, saiu. A mulher começou a tremer e a se virar pelo chão, sem suportar sua virtude. Chamando-a, São Francisco disse: "Ordeno-te em virtude da obediência, espírito imundo, sai dela". Ele a deixou imediatamente, sem lesão alguma, retirando-se muito indignado.

Demos graças a Deus todo-poderoso, que é o autor de todas as coisas, sempre. Mas a nossa intenção não é contar os seus milagres, que só mostram a santidade, mas não a constituem. Vamos deixar de lado essas coisas, que seriam mesmo demasiadas, e retomar as obras da salvação eterna, falando da excelência de sua vida e da maneira sincera com que se entregou a Deus.

CAPÍTULO 27. Clareza e firmeza do pensamento de São Francisco. Pregação diante do Senhor Papa Honório Confia a si mesmo e a seus frades nas mãos de Hugolino, bispo de Ostia

71. O varão de Deus, Francisco, tinha aprendido a buscar não os seus interesses, mas o que lhe parecesse servir melhor à salvação dos outros. Acima de tudo, porém, desejava aniquilar-se para estar com Cristo. Por isso, seu esforço maior era manter-se livre de todas as coisas que estão no mundo, para que seu pensamento não tivesse a serenidade perturbada por uma hora sequer de contágio com essa poeira. Tornou-se insensível a todo ruído exterior e se empenhou com todas as forças a dominar os sentidos e coibir as paixões, entregando-se unicamente a Deus. Tinha "sua morada nas fendas das rochas e nas concavidades dos penhascos". Com verdadeira devoção, recolhia-se em casas abandonadas e, esvaziado de si mesmo, residia permanentemente nas chagas do Salvador. Procurava frequentemente os lugares desertos para poder dirigir-se de toda alma a Deus, mas quando o tempo lhe parecia oportuno não tinha preguiça de se pôr em atividade e de cuidar com boa vontade da salvação do próximo. Seu porto seguro era a oração, que não era curta, nem vazia ou presunçosa, mas demorada, cheia de devoção e tranquila na humildade. Se começava à tarde, mal a podia acabar pela manhã. Andando, sentado, comendo ou bebendo, estava entregue à oração. Gostava de passar a noite orando sozinho em igrejas abandonadas e construídas em lugares desertos, onde, com a proteção da graça de Deus, venceu muitos temores e muitas angústias.

72. Lutava corpo a corpo com o demônio, porque nesses lugares não só o tentava interiormente, mas também procurava desanimá-lo com abalos e estardalhaços exteriores. Mas o valente soldado de Cristo sabia que o seu Senhor tinha todo o poder, e não cedia às amedrontações, dizendo em seu coração: "Malvado, as armas da tua malícia não me podem ferir mais aqui do que se estivéssemos em público, na frente de todo mundo".

Na verdade, ele era muito constante e só queria fazer o que era de Deus. Pregando frequentemente a palavra de Deus a milhares de pessoas, tinha tanta segurança como se estivesse conversando com um companheiro. Olhava a maior das multidões como se fosse uma só pessoa e falava a cada pessoa com todo o fervor como se fosse uma multidão. A segurança que tinha para falar era resultado de sua pureza de coração, pois, mesmo sem se preparar, falava coisas admiráveis, que ninguém jamais tinha ouvido. Se, diante do povo reunido, não se lembrava do que tinha preparado e não sabia falar de outra coisa, confessava candidamente que tinha preparado muitas coisas e não estava conseguindo lembrar nada. De repente, enchia-se de tanta eloquência que deixava admirados os ouvintes.
Mas houve ocasiões em que não conseguiu dizer nada, deu a bênção e, só com isso, despediu o povo com a melhor das pregações.

73. Uma vez teve que ir a Roma por causa da Ordem e sentiu muita vontade de falar diante do Papa Honório e dos veneráveis cardeais. Sabendo disso, Dom Hugolino, o glorioso bispo de Óstia, que tinha uma especial amizade pelo santo de Deus, ficou cheio de temor e de alegria, porque admirava o fervor do santo, mas também sabia como era simples. Apesar disso, confiando na misericórdia do Todo poderoso, que no tempo da necessidade nunca falta aos que o veneram com piedade, apresentou-o ao Papa e aos eminentíssimos cardeais. Diante dos importantes príncipes, o santo pediu a licença e a bênção e começou a falar com toda a intrepidez. Falava com tanta animação que, não se podendo conter de alegria, dizia as palavras com a boca e movia os pés como se estivesse dançando, não com malícia, mas ardendo no fogo do amor de Deus: por isso não provocou risadas, mas arrancou o pranto da dor. De fato, admirados pela graça de Deus e a segurança desse homem, muitos deles ficaram compungidos de coração. Entretanto, receoso, o venerável bispo de Ostia orava fervorosamente ao Senhor para que a simplicidade do santo homem não fosse desprezada, porque isso resultaria em desonra para ele, que tinha sido constituído pai de sua família.

74. Porque São Francisco se ligara a ele como um filho ao pai e como um filho único à sua mãe, achando que em seus braços podia descansar e dormir tranquilo. Ele assumira e exercia o cargo de pastor, e deixava o título para o santo. O bem-aventurado pai cuidava do que era necessário, mas o hábil senhor fazia com que tudo fosse realizado. Quantas pessoas, especialmente no princípio, tentaram acabar com a implantação da Ordem! Quantos procuraram sufocar a vinha escolhida que a mão do Senhor tinha plantado havia pouco neste mundo! Quantos tentaram roubar e consumir seus primeiros e melhores frutos! Mas todos foram vencidos e desbaratados pelo eminentíssimo cardeal. Ele era um verdadeiro rio de eloquência, bastião da Igreja, defensor da verdade e protetor dos humildes. Bendito e memorável o dia em que o santo se confiou a tão venerável senhor.

Numa das muitas vezes em que o cardeal foi mandado como legado da Sé Apostólica à Toscana, São Francisco, que ainda não tinha muitos frades e queria ir à França, passou por Florença, onde morava nesse tempo o referido bispo. Ainda não estavam unidos por especial amizade, mas a fama de uma vida santa tinha unido os dois em mútuo afeto.

75. Como era costume de São Francisco visitar os bispos e padres logo que chegava a alguma cidade ou região, quando soube da presença de um bispo tão importante, apresentou-se com a maior reverência. O bispo o recebeu com muita devoção, como fazia sempre com todos os que pretendiam viver a vida religiosa e principalmente com os que levavam o estandarte da santa pobreza e humildade. Como era solícito em ajudar as necessidades dos pobres e se interessava pessoalmente por seus problemas, quis saber atenciosamente os motivos da visita do santo e escutou com muita bondade as seus projetos. Ao vê-lo desprendido como ninguém dos bens terrenos e tão abrasado no fogo que Jesus trouxe ao mundo, seu coração se juntou desde esse momento ao coração dele, pediu-lhe orações com devoção e lhe ofereceu com prazer sua proteção. Aconselhou-o por isso a desistir da viagem para cuidar de guardar aqueles que o Senhor lhe confiara, com vigilante solicitude. Quando viu toda essa generosidade, bondade e decisão em tão ilustre personagem, São Francisco teve uma alegria enorme, lançou-se a seus pés e lhe confiou devotamente sua própria pessoa e os seus frades.

CAPÍTULO 28. Caridade e compaixão para com os pobres. O que fez por uma ovelha e uns cordeirinhos.

76. Pai dos pobres, o pobre Francisco queria viver em tudo como um pobre; sofria ao encontrar quem fosse mais pobre do que ele, não por vanglória, mas por íntima compaixão. Não tinha mais do que uma túnica pobre e áspera, mas muitas vezes quis dividi-la com algum necessitado.

Movido de enorme piedade, no tempo de maior frio, esse pobre riquíssimo pedia aos ricos deste mundo que lhe emprestassem mantos ou peles para poder ajudar os pobres em todas as partes. E como eles o atendiam com devoção e com maior boa vontade do que a do santo pai aos lhes pedir, ele dizia: "Eu recebo isto com a condição de vocês não ficarem esperando devolução". E logo que encontrava um pobre ia todo alegre cobri-lo com o que tivesse recebido.

Doía-lhe muito ver algum pobre sendo ofendido, ou ouvir alguém dizendo palavras de maldição para qualquer outra criatura. Aconteceu que um irmão disse uma palavra má a um pobre que pedia esmolas, pois lhe falou: "Veja lá que você não seja um rico que está se fingindo de pobre". Ouvindo isso, o pai dos pobres, São Francisco, teve uma dor muito grande e repreendeu o frade com dureza. Mandou que se despisse diante do pobre, beijasse os pés dele e lhe pedisse desculpas. Costumava dizer: "Quem amaldiçoa um pobre injuria o próprio Cristo, de quem é sinal, pois ele se fez pobre por nós neste mundo". Por isso era frequente que, ao ver algum pobre carregando lenha ou outra carga, ajudasse com seus próprios ombros, tão fracos.

77. Tinha tanta caridade que seu coração se comovia não só com as pessoas que passavam necessidade, mas também com os animais sem fala nem razão, os répteis, os pássaros e as outras criaturas sensíveis e insensíveis. Mas, entre todos os animais, tinha uma predileção pelos cordeirinhos, porque a humildade de Nosso Senhor Jesus Cristo foi comparada muitas vezes na Bíblia à do cordeiro, e com muito acerto. Gostava de ver e de tratar com carinho todas as criaturas, principalmente aquelas em que podia descobrir alguma semelhança alegórica com o Filho de Deus.
Numa ocasião em que viajava pela Marca de Ancona e tinha pregado a palavra de Deus nessa cidade, dirigiu-se a O'simo com o senhor Paulo, a quem tinha constituído ministro de todos os frades naquela província. Encontrou no campo um pastor apascentando um rebanho de cabras e bodes. No meio das cabras e dos bodes havia uma ovelhinha, a andar humildemente pastando sossegada. Vendo-a, São Francisco estacou e, com o coração tocado por uma dor interior, deu um suspiro alto e disse ao irmão que o acompanhava: "Não estás vendo essa ovelha mansa no meio das cabras e bodes”? Era desse jeito que Nosso Senhor Jesus Cristo andava, manso e humilde, no meio dos fariseus e dos príncipes dos sacerdotes. Por isso eu te peço por caridade, meu filho, que te compadeças dessa ovelhinha comigo, e a compres, para podermos tirá-la do meio dessas cabras e bodes.

78. Admirando sua dor, Frei Paulo também ficou com pena, mas não sabiam como fazer para pagar, porque não tinham nada além das pobres túnicas que vestiam. Nisso, passou um negociante e lhes ofereceu o preço que queriam. Deram graças a Deus, receberam a ovelha e chegaram a Ósimo, onde se apresentaram ao bispo da cidade. Este os recebeu com muita devoção e ficou muito admirado com a ovelha que o santo levava e com o carinho que lhe demonstrava. Mas o servo de Cristo inventou uma longa parábola sobre a ovelha, e o bispo, com o coração tocado pela sua simplicidade, deu graças a Deus. No dia seguinte, saiu da cidade. Pensando no que devia fazer com a ovelha, seguiu o conselho de seu companheiro e irmão e a confiou à guarda de um convento de irmãs em São Severino. As veneráveis servas de Cristo receberam a ovelha como um grande presente de Deus. Cuidaram dela por muito tempo e com sua lã fizeram uma túnica que mandaram levar ao pai São Francisco em Santa Maria da Porciúncula, por ocasião de um capítulo. O santo a recebeu com muita reverência e alegria, beijou-a e convidou todos os presentes a se alegrarem com ele.

79. Numa outra vez em que passou pela Marca, seguido alegremente pelo mesmo companheiro, encontrou um homem que levava para uma feira dois cordeirinhos amarrados e presos ao seu ombro. Ao ouvi-los balir, São Francisco se comoveu, aproximou-se e demonstrou sua compaixão, acariciando-os como uma mãe com o filho que chora. E disse ao homem: - "Por que estás maltratando desse jeito os meus irmãozinhos, assim amarrados e pendurados?" - "Vou levá-los para vender na feira, porque preciso do dinheiro". - "E o que vai acontecer com eles depois?" - "Quem comprar vai matá-los e comer". - "De jeito nenhum, isso não vai acontecer. Leva como pagamento a minha capa e me dá os cordeiros". O homem entregou os animaizinhos com muita alegria e recebeu a capa, que valia muito mais e que o santo tinha recebido emprestada de um homem piedoso naquele mesmo dia, para se defender do frio. O santo, quando recebeu os cordeirinhos, ficou pensando o que fazer com eles. Seguindo o conselho do irmão que o acompanhava, devolveu-os ao mesmo homem para cuidar deles, mandando-lhe que nunca os vendesse nem lhes fizesse mal algum, mas que os conservasse, alimentasse e tratasse com carinho.

CAPÍTULO 29. Seu amor pelo Criador em todas as criaturas. Descrição de sua personalidade e de seu aspecto exterior.

80. Seria muito longo e praticamente impossível enumerar e descrever tudo que o glorioso pai São Francisco fez e ensinou durante a sua vida. Como contar o afeto que tinha para com todas as coisas de Deus? Quem seria capaz de mostrar a doçura que sentia quando contemplava nas criaturas a sabedoria, o poder e a bondade do Criador? Ao ver o sol, a lua, as estrelas e o firmamento, enchia-se muitas vezes de alegria admirável e inaudita. Piedade simples, simplicidade piedosa!

Tinha um amor enorme até pelos vermes, por ter lido sobre o Salvador: Sou um verme e não um homem. Recolhia-os por isso no caminho e os colocava em lugar seguro, para não serem pisados pelos que passavam. Que poderei dizer mais sobre as outras criaturas inferiores, se até para as abelhas, para que não desfalecessem no rigor do frio, fazia dar mel ou um vinho de primeira? A operosidade e o engenho das abelhas exaltavam-no a tão grande louvor de Deus que muitas vezes passou o dia louvando a elas e às outras criaturas.

Como os três jovens de antigamente, colocados na fornalha em brasa, sentiram-se convidados por todos os elementos para louvar e glorificar o Criador de todas as coisas, também este homem, cheio do espírito de Deus, não cessava de glorificar, louvar e bendizer o
Criador e Conservador do universo por meio de todos os elementos e criaturas.

81. Que alegria a sua diante das flores, ao admirar-lhes a delicada forma ou aspirar o suave perfume! Passava imediatamente a pensar na beleza daquela flor que brotou da raiz de Jessé no tempo esplendoroso da primavera e com seu perfume ressuscitou milhares de mortos. Quando encontrava muitas flores juntas, pregava para elas e as convidava a louvar o Senhor como se fossem racionais. Da mesma maneira, convidava com muita simplicidade os trigais e as vinhas, as pedras, os bosques e tudo que há de bonito nos campos, as nascentes e tudo que há de verde nos jardins, a terra e o fogo, o ar e o vento, para que tivessem muito amor e louvassem generosamente ao Senhor.
Afinal, chamava todas as criaturas de irmãs, intuindo seus segredos de maneira especial, por ninguém experimentada, porque na verdade parecia já estar gozando a liberdade gloriosa dos filhos de Deus. Na certa, ó bom Jesus, ele que na terra cantava o vosso amor a todas as criaturas, estará agora a louvar-vos nos céus com os anjos porque sois admirável.

82. É impossível compreender quanto se comovia quando pronunciava vosso nome, Senhor santo! Parecia um outro homem, um homem de outro mundo, todo cheio de júbilo e do mais puro prazer. Por isso, onde quer que encontrasse algum escrito, de coisas divinas ou humanas, na rua, em casa ou no chão, recolhia-o com todo o respeito e o colocava em algum lugar sagrado ou decente, pensando que poderia referir-se ao Senhor ou conter seu santo nome.

Um dia, um frade lhe perguntou por que recolhia com igual apreço os escritos dos pagãos, onde não estava o nome do Senhor, e ele respondeu: "Meu filho, contêm as letras com que se escreve o gloriosíssimo nome do Senhor. O que há de bom neles não pertence aos pagãos nem a ninguém em particular, mas somente a Deus, 'de quem são todos os bens'". Outra coisa admirável é que, quando mandava escrever alguma carta de cumprimentos ou conselhos, não permitia que se apagasse alguma letra ou sílaba, mesmo que fosse supérflua ou errada.

83. Como era bonito, atraente e de aspecto glorioso na inocência de sua vida, na simplicidade das palavras, na pureza do coração, no amor de Deus, na caridade fraterna, na obediência ardorosa, no trato afetuoso, no aspecto angelical! Tinha maneiras finas, era sereno por natureza e de trato amável, muito oportuno quando dava conselhos, sempre fiel em suas obrigações, prudente no julgar, eficaz no agir e em tudo cheio de elegância. Sereno na inteligência, delicado, sóbrio, contemplativo, constante na oração e fervoroso em todas as coisas.

Firme nas resoluções, equilibrado, perseverante e sempre o mesmo. Rápido para perdoar e demorado para se irar, tinha a inteligência pronta, uma memória luminosa, era sutil ao falar, sério em suas opções e sempre simples. Era rigoroso consigo mesmo, paciente com os outros, discreto com todos. Muito eloquente, tinha o rosto alegre e o aspecto bondoso, era diligente e incapaz de ser arrogante.

Era de estatura um pouco abaixo da média, cabeça proporcionada e redonda, rosto um tanto longo e fino, testa plana e curta, olhos nem grandes nem pequenos, negros e límpidos, cabelos castanhos, pestanas retas, nariz proporcional, delgado e reto, orelhas levantadas mas pequenas, têmporas achatadas, língua pacificadora, ardente e penetrante, voz forte, doce, clara e sonora, dentes unidos, alinhados e brancos, lábios pequenos e delgados, barba preta e um tanto rala, pescoço esguio, ombros retos, braços curtos, mãos delicadas, dedos longos, unhas compridas, pernas delgadas, pés pequenos, pele fina, enxuto de carnes.

Vestia-se rudemente, dormia pouco e era muito generoso. E como era muito humilde, mostrava toda a mansidão para com todas as pessoas, adaptando-se a todos com facilidade. Embora fosse o mais santo de todos, sabia estar entre os pecadores como se fosse um deles.

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